ao português na
Amazônia brasileira
José BESSA FREIRE
Universidade do Amazonas, Manaus, BRÉSIL
O processo de
conquista da Amazônia caracterizou-se, entre outras, por uma contradição
fundamental: de um lado, a absoluta dependência dos europeus recém-chegados em
relação aos índios que já ocupavam a região com uma experiência acumulada de
alguns milênios, e de outro lado, o obstáculo encontrado para apropriar-se
desta experiência devido às dificuldades de comunicação originadas pelas
diferenças de línguas. O objetivo deste artigo é levantar algumas questões
relacionadas às formas como històricamente se
pretendeu resolver esta contradição na Amazônia brasileira, bem como suas
consequências e as diferentes atitudes em relação as línguas.
Estas diferentes
formas, ditadas pela política
de línguas da Coroa
Portuguesa e mais tarde do Estado brasileiro, não foram ainda suficientemente
estudadas e por esta razão torna-se prematuro tentar estabelecer uma
periodização, mesmo porque o processo não se desenvolveu em forma simultânea em
todas regiões da Amazônia, requerendo-se uma aproximação histórica da questão
língua em cada sub-região.
No entanto, para
efeito deste artigo e a título provisório, podemos distinguir cinco fases que, grosso
modo, cobriram os seguintes momentos históricos, cabendo assinalar que as
datas que servem de marco para cada etapa são baseadas apenas em alguns
documentos aos quais tivemos acesso, não devendo, portanto, servir como
referências definitivas nem momentos de ruptura.
a. Fase des intérpretes (séc. XVI)
b. Etapa de implantação do Nheengatu (1616-1686)
c. Expansão do Nheengatu (1686-1757)
- com apoio oficial (1686-1727)
- sem apoio oficial (1727-1757)
d. Tentativas de portugalização (1757-1850)
e. Processo de hegemonia da língua portuguesa (começa a partir de 1850 até os nossos
dias).
Os europeus foram
compreendendo que a comunicação com os índios era uma condição fundamental de
sobrevivência, desde os primeiros contatos; e por esta razão, tanto as
entradas localizadas em áreas limitadas como as expedições mais ambiciosas
levavam sempre "línguas", intérpretes. No século XVI, nenhuma
colónia foi estabelecida na região, sendo transitório o contato com os índios,
mas nas duas únicas grandes viagens realizadas ao longo do rio Amazonas - a
expedição de Orellana
(1541-32) e a de
Ursúa-Aguirre (1560-61) - o papel dos intérpretes foi de extrema importância,
conforme documentam os relatos.
O dominicano frei
Gaspar de Carvajal,
em diferentes trechos de sua
crônica, elogia a habilidade de Francisco de Orellana para entender e falar a língua Omagua, na qual
ele teria sido iniciado durante o tempo em que os expedicionários ficaram acampados no rio Coca, afluente do Napo.
"O entender o
Capitão (Orellana) a sua língua (dos Omagua), foi, depois de
Deus, o que nos ajudou a não ficarmos no rio. Porque se os não entendesse, nem
os índios ficariam em paz conosco, nem teríamos acertado com estas
povoações" (CARVAJAL:
1565, p.29).
Seguramente os 13 tuxauas reunidos na região do alto Amazonas - ao
contrário do que insinua Carvajal - não entenderam o discurso solene pronunciado por Orellana em janeiro de 1542, apresentando-lhes Carlos V
como "Imperador de todas as índias". No entanto, é bem prová vel que
"depois de Deus" (e da pólvora), o conhecimento da lingua, mesmo precário, tenha sido vital para que os
expedicionários espanhóis conseguissem atravessar todo o curso do rio Amazonas.
Este conhecimento permitiu-lhes colher junto aos Omagua preciosas informações
sobre outros povos ribeirinhos e elementos para fazer uma leitura da região, da
sua geografia e dos recursos nela existentes.
Vinte anos
depois, Pedro de Ursúa e Lope
de Aguirre descem o rio com um grupo de "índios brasiles" servindo de intérpretes; esses índios -
parte do contingente tupi que havia migrado até Chachapoyas, no Peru - jogaram
um papel tão importante que, quando os intérpretes fugiram no meio da viagem,
os expedicionários, usando "señales y señas" passaram muitas penúrias e privações,
perdendo-se durante alguns dias no delta do Amazonas, conforme atestam os
relatos de dois dos expedicionários: o soldado Francisco VASQUEZ (p 423-448) e o Capitão ALTAMIRANO (p. 386).
Somente no século
XVII, portugueses e espanhóis - unificados então temporàriamente pela mesma
Coroa Filipina - decidem estabelecer
colônias na região com caráter estável; os primeiros instalam o Forte do
Presépio (1616) na foz do rio Amazonas, enquanto os segundos organizam-se na area do alto Amazonas. A partir destas diferentes
bases, eles irão penetrando gradativamente o território, usando a grande
avenida do rio Amazonas - via principal de penetração e de organização do
espaço regional.
O estabelecimento
de colônias, fortalezas e missões veio aguçar ainda mais a necessidade contar
com a experiência dos índios e com sua força de trabalho, dado o caráter agora
permanente da ocupação. Os padres da Companhia de Jesus perceberam isto com
bastante lucidez: o jesuíta português Antonio Vieira, em
Belém do Pará, viu os índios como "os braços e os pé" da colônia,
enquanto o jesuíta espanhol Manuel Rodríguez, da
Província de Quito, a mais de 3.500 hm de distancia, concluiu que eles eram,
além do mais, a "cabeça", na medida em que "los indios ... son precisamente necesarios para todo, que nada se hace sin ellos. No hay Indias sino hay Indios" (RODRÍGUEZ: 1684, p. 393). Ambos se
referiam ao uso da força de trabalho indígena, mas o segundo
insistia também na necessidade dos índios para a leitura da região.
Esta urgência de
comunicação iria encontrar, contudo, uma série de obstáculos, relacionados à
complexidade do quadro lingüístico da Amazônia, caracterizado por uma enorme
diversidade de línguas, situação bem diferente da relativa homogeneidade
encontrada pelos portugueses no litoral brasileiro ou pelos espanhóis nos
Andes.
Os relatos
quinhentistas falam de diferentes nações e algumas vezes proporcionam
informações etnográficas sobre estas diferenças. Mas, ao mesmo tempo, eles nos
fazem acreditar que os intérpretes - seja Orellana, sejam оs índios Tupi - podiam comunicar-se indiscriminadamente com todos os grupos,
criando a ilusão de uma unidade lingüística que não existia, como logo se
descobriu.
Em 1639, o jesuíta espanhol Cristoval de Acuña, que acompanhou a expedição de Pedro Teixeira em percuso idêntico ao
realizado cem anos antes por Orellana, identificou
- graças aos índios intérpretes - apenas nas margens do grande rio e nas bocas
de seus principais afluentes, povos que "passam de 150, todos de línguas diferentes" (ACUÑA: 1641, p. 199).
Esta lista foi se
ampliando e quantitativamente, crescendo na medida em que se aprofundava s
penetração do território e se expandia a conquista, levando o padre Vieira a
denominar o Amazonas duas décadas depois como "rio Babel". Laureano
DE LA CRUZ (1653), HERIARTE (1662), Samuel FRITZ (1691) e outros
viajantes nos séculos posteriores vão acrescentar novos grupos lingüísticos a
estas extensas listas, que continuaram crescendo até recentemente.
Apesar dos dados
lingüísticos contidos nas fontes históricas serem extremamente precários e
apesar da qüestionabilidade do aspecto estatístico num contexto impreciso
соmо este, não seria demasiado lembrar que das 1.492 línguas
faladas na América do Sul registradas por LOUKOTKA (1968), cerca de 718, ou seja, quase a metade, o eram em território que
constitue a atual Amazônia brasileira. Eles estariam assim distribuídas, de
acordo a Loukotka:
Grupos lingüísticos da Amazônia brasileira:
Tronco lingüístico Número de grupos
Tupi 130
Karib 108
Aruak 83
Pano 34
Tukano 26
Gê 66
Línguas isoladas ou
não classificadas 271
––––––
Total 718
Os Tupi eram
dominantes na costa atlântica do Pará é Maranhão é na bacia do baixo Amazonas,
especialmente ao longo de sua margen direita; sua
presença foi assinalada, além disso, mais acima, na ilha Tupinambarana,
chegando inclusive a penetrar na bacia do alto Amazonas, onde se encontravam os
Omagua, Cocama e Cocamilla; eram grupos em plena expansão e esta expansão
estava se dando sob os olhos dos primeiros europeus (LATHRAP: 1970, p. 78). Os
Aruak dominavam a bacia do alto Amazonas e a região do baixo rio Negro e rios
Uatamã, Jatapú e Urubú,
enquanto os Karib estavam
centralizados fundamentalmente na parte mais ao norte, nas Guianas. Os Tukano
estavam ao nordeste, os Pano nas cabeceiras dos rios Purus, Juruá e Ucayali e
os Gê na região sul do atual Estado do Pará e norte do Mato Grosso,
encontrando-se ainda espalhados em diferentes áreas grupos de origem
desconhecida que foram exterminados antes que se pudesse identificá-los.
Diante deste
quadro, impunha-se tomar uma série de medidas políticas em relação a estas
linguas, sobretudo porque esta multiplicidade constituía um grande obstáculo
para os agentes do colonialismo poder enquadrar os povos que as falavam dentro
do sistema produtivo colonial e da nova organização do trabalho. Já não sé
tratava mais, como no século XVI, de fazer apenas uma leitura da região
através de alguns intérpretes, mas, além disso, de estabelecer uma forma de
comunicação permanente e eficaz que possibilitasse o funcionamento do sistema.
Milhares é
milhares de índios foram retirados de suas aldeias de origem, transferidos de
seus territórios e integrados ao chamado sistema de "aldeias de repartição"
ou "aldeias domésticas" e neste caso eram considerados como
"livres"; ou então foram inseridos diretamente na produção e na
prestação de serviços como escravos, o que era permitido pela legislação.
Estas
"aldeias de repartição" onde eram estocados índios de diferentes famílias lingüísticas situavam-se proximo aos centros produtivos
e foram controladas nas primeiras décadas pelos colonos; elas eram dirigidas
por um morador luso que recebia o título de "capitão-de-aldeia", e
que repartia, alugava, concedia os indios aos demais
colonos, num sistema muito similar ao da "encomienda" usado na América Hispánica. Os missionários detinham apenas o "governo
espiritual", o que implicava tarefas de catequese e educação. Quanto aos índios escravos, eles eram diretamente submetidos aos
seus propietários.
Durante os
primeiros 70 anos (1616-1686), os missionários, disputaram aos colonos o
"governo temporal" e o controle sobre a mão-de-obra indígena, obtendo
três vitórias parciais em pequenos períodos, logo seguidas de derrotas. Só com
o Regimento das Missões (1686)
é que os missionários
consolidam o controle efetivo sobre os índios das aldeias de repartição, mantendo ainda o poder decisório para definir
quais os índios que poderiam ser escravizados.
Instalada a
colônia nos inícios do século XVII, as novas tarefas que os índios - tanto os
considerados como "livres" e os escravos tinham agora de realizar
para os colonos se tornaram um pouco mais complexas, e mesmo as tarefas
tradicionais, porque elas se davam dentro de um novo contexto, isto é, num
sistema de trabalho compulsório que implicava disciplina, aumento da jornada de
trabalho, obediência as ordens e ritmos até então desconhecidos no quadro dos
sistemas indígenas. As artes mecânicas previstas na lei que criou o sistema de
capitão-de-aldeias (MALHEIROS: 1866, p. 50), o trabalho nos
engenhos de açúcar desde a sua construção até o seu funcionamento, as
plantações de tabaco envolvendo atividades como a derrubada de árvores, limpeza
de terreno, plantio, etc; o transporte fluvial - os índios constituíam a única
força motriz da colônia usada para colocar as canoas em movimento - a fiação de
algodão, as coletas de drogas e outras tarefas ligadas à produção de bens e à
prestação de serviços exigiam que fosse assegurado um nível básico de
comunicação.
Os dois níveis
para garantir a marcha da conquista deviam ser garantidos: de uma parte, o
aspecto produtivo cobrindo diversas exigências que deviam ser transmitidas e
comunicadas de uma maneira inequívoca e por outro lado, todo o aspecto
ideológico, que o justificava. A catequese e a propaganda religiosa - tão caras
a Metrópole - funcionando entre outros como elementos de
"capacitação" e "enquadramento" desta mão-de-obra,
necessitava também deste mínimo de comunicação.
Para o colono
mandar e o índio obedecer, para o missionário ensinar, disciplinar e
cristianizar, colonos e missionários tinham duas alternativas: ou tentar
aprender a infinidade de línguas ou estabelecer uma língua de comunicação
regional.
As raras medidas
no que diz respeito às línguas não foram decididas nos primeiros momentos da
Conquista diretamente pela Coroa Portuguesa ou pela administração colonial, mas
pela prática cotidiana
de um dos seus braços: os
missionários e mais particularmente os jesuítas.
No que diz
respeito à primeira alternativa, foram feitas algumas tentativas localizadas,
tanto por missionários espanhóis como portugueses, para aprender algumas
línguas indígenas; a prática missionária indicava que "es un hechizo para aquellos gentiles hablarles en su propia língua y se agradan notablemente de verla como honrada en la boca de los españoles"; mais do que agradar aos índios se tratava de usar
sua língua materna como forma de integrá-los ao
sistema de trabalho: "hablarles
con su lenguaje... consiste tenerlos promptos a su obediencia y gustosos
en su enseñanza"
(RODRÍGUEZ: 1684, p.
178).
No entanto, na
medida em que foi se tomando consciência da enorme variedade lingüística, as dificultades de
ordem prática foram se colocando: não era viável para um missionário
encarregado de uma aldeia de repartição aprender todas as línguas aí faladas.
Era necessário obter esta "obediência" por outros meios.
Aqui se começou a
elaborai justificativas ideológicas e a alimentar outro obstáculo, que
Hoornaert denominou de
"catolicismo guerreiro", responsável pela produção de uma ideologia
etnocêntrica destinada a exterminar estas línguas, consideradas como
"línguas travadas", isto é, toscas, difíceis de pronunciar
(HOORNAERT: 1974, p. 31-45).
O carmelita
Vásquez de Espinosa, depois de participar de expedições malogradas na área da atual Amazônia peruana, para as quais investiu
dinheiro do seu próprio bolso, concluiu desiludido que
as diferentes línguas - um dos fatores responsáveis pelo fracasso de suas
expedições - eram "mañas
y astucias del demonio, para causar más confusión"
(VASQUEZ DE ESPINOSA: 1628-1629, p. 29).
O próprio padre
Antonio Vieira, tão lúcido em algumas análises demonstrou horror em ter que
aprender as múltiples
línguas, referindose em
diferentes ocasiões aos índios que as
falavam como "desarticulados", "estúpidos" e "abortos
da natureza". Para ele, como regra geral, essas línguas não podiam ser
compreendidas, porque suas pronúncias "eram tão diferentes que as silabas,
as vogais, as consoantes e até mesmo as palavras não podiam ser distinguidas na
confusão de sons" (Vieira in SWEET, p. 105).
Esta visão
preconceituosa do "catolicismo guerreiro" sobre as línguas indígenas
se desenvolveu em dois níveis: de um lado, um bastante grotesco e primário: se
existiam tantas e tão variadas línguas, o responsável era o "demônio"
que desta forma dificultava a pregação do evangelho (e de quebra, mas isto não
era explicitado, dificultava o recrutamento da mão-de-obra); de outro lado,
outro mais sutil: estas línguas eram embrulhadas, imperfeitas, mal elaboradas,
pobres, deselegantes, incapazes de exprimir idéias universais e faziam parte
das "infinitas superstições" indígenas, não podendo portanto servir
como instrumento natural de comunicação. É aqui, justamente, que se lança a
base e se constrói os alicerces da idéia sobre a inferioridade das línguas
indígenas e, em consequência, da inferioridade dos povos que as falavam,
preconceito que conseguiu atravessar os séculos e constitui hoje uma herança
difusa e profundamente arraigada na moderna sociedade brasileira.
Ambos níveis, de
forma grotesca ou sutil, pretendiam justificar a extinção dessas variedades.
Cоm as línguas indígenas, o que estava sendo questionado iram as
culturas indígenas em seu conjunto, eram as formas de viver dos povos que as
falavam. A catequese iria, em consequência, constituir um esforço para apagar
estas diferenças.
O padre Vieira,
polemizando com os colonos do Pará, defendeu a possibilidade de transformar o "indio bárbaro"; eliminando estas diferenças
através da catequese, fazendo-os abandonar suas línguas e suas culturas. Para Vieira, o missionário
era um escultor da mesma maneira que o escultor constrói de uma pedra informe
uma estátua, assim também o missionário pode dar feições humanas ao índio.
"É uma pedra,
como dizeis, o índia rude? Pois trabalhaie continuai com ele. Aplicai o cinzel
um dia e outro dia; dai uma martelada e outra
martelada e vereis como dessa pedra tosca e informe fazeis não só um homem
senão um cristão e pode ser um santo" (Vieira in RAIOL, p. 131).
Apesar da
quantidade massiva de mártires, não se tem notícias de nenhum santo indígena
oficialmente reconhecido pela Igreja, mas o barulho de algumas
"marteladas" chegaram até os dias de hoje, com informações sobre os
castigos infligidos aos índios, entre outras
razões, por falarem em suas línguas maternas. Heriarte, em diferentes ocasiões,
proporciona dados sobre as diferenças lingüísticas e outros aspectos culturais;
após escandalizar-se com as "superstições infinitas" dos índios da foz do Amazonas que "entendem que morrendo
se acaba tudo" e "crião seus filhos sem castigo nem doutrina",
ele conclui:
"De tudo isto
os Padres dá Companhia tem evitado muito, e os tem (aos índios) doutrinados em
forma que já nem usam commumente destas cousas, e se as fazem, os Padres os
castigão (HERIARTE : 1662,
p. 19).
Desta maneira, a
prática missionária decidiu reprimir as diferentes línguas, na tentativa de
abolir as diferenças e facilitar a tarefa comunicativa para tornar viável o
projeto colonial, a golpes de marteladas; isto significou, pois, na prática, a
opção pela segunda alternativa: o estabelecimento de uma língua franca.
No entanto, esta
opção implicava ainda uma outra escolha: qual seria a língua franca
evidentemente que a solução ideal para transformar o "índio bárbaro"
em homem, em cristão, seria substituir suas línguas "confusas" por
uma língua clara de homens e de cristãos, pela língua de Camões, "a
última flor do Lácio". Este projeto de impor de imediato a língua
portuguesa como língua franca já havia sido tentado e ensaiado no litoral
brasileiro, sendo condenado ao fracasso. Dele ficou uma curiosa polêmica da
Companhia de Jesus соm o bispo Sardinha, porque nesta época os
jesuítas confessavam os índios em português, com a ajuda de intérpretes, o que
quebrava o segredo da confissão, feria a tradição e maculava o sacramento com a
introdução de dois elementos "estranhos à religiosidade: o intérprete e
outra língua que falava" (BAETA NEVES: 1978, p. 75).
Por outro lado,
se era possível conceber um intérprete no confessonário, mesmo
"maculando" o sacramento, era mais difícil imaginar a existência de
intérpretes em cada engenho de açúcar, em cada plantação de tabaco e em cada
casa. Os jesuítas, que haviam provado uma certa habilidade para as línguas
indígenas em toda a América latina, diante do fracasso deste projeto inicial, escolheram então no século XVI, no litoral
brasileiro, a "Língua Geral Brasílica" como língua de catequese.
Esta "Língua
Geral", falada pelos Tupinambás - povo que se distribuía desde o litoral
paulista até o litoral norte da foz do rio Amazonas, tinha, contudo, que ser
"aperfeiçoada".
"Da mesma
sorte que se queria melhorar os costumes, o espírito, a moral, a religião do
índio, também se pretendia melhorar-lhe a língua ... fornecer-lhe uma língua
melhor, mais aperfeiçoada, mais de acordo com a de um homo
sapiens".(MATTOSO CAMARÁ Jr: 1965,
p. 102).
Os jesuítas
trataram, então, de dar-lhe uma gramática, tomando como modelo a gramática
latina.
Era esta
"Língua Geral" a língua com a qual os próprios colonos portugueses
chegados de Pernambuco e Maranhão comunicavam-se com os milhares de Tupinambás
que de lá trouxeram como aliados nos primeiros momentos da Conquista da
Amazônia. Neste sentido, a "Língua Geral" já começou desempenhando a
função de língua franca na Amazônia desde os primeiros momentos, independente
de qualquer decisão prévia.
Como a população
de fala portuguesa que se instalou na Amazônia era extremamente reduzida - os 150 indivíduos que chegaram em 1616 com Castelo
Branco, um século mais tarde somavam aproximadamente mil pessoas - adotar o
português como língua franca era um projeto inviável, neste momento histórico
em que a ocupação lusa da Amazônia não estava definida e apenas começava a
desenhar-se e que os diferentes povos indígenas estavam ainda em plena posse
de seus territórios. Como a maioria dos colonos e missionários já chegaram na
Amazônia falando a "Lingua
Gerai", como muitos dos
povos que ái habitavam eram de origem Tupi, foi,
portanto, uma variedade desta "Língua Geral", trabalhada pelos
jesuítas e ensinada nos seus seminários, que foi introduzida na Amazônia.
Segundo RODRIGUES (1964), a "Lingua Geral"
teve ramificações grandes e pouco conhecidas uma dessas ramificações foi
precisamente, o Nheengatu.
O Nheengatu
("fala boa"), cuja normativização foi elaborada pelos jesuítas a
ponto de ser chamado também de "tupi jesuítico", apesar de
"sensivelmente distanciado das línguas tupis naturais" (MATTOSO
CAMARÁ Jr: 1965, p.
104) exerceu a função inicial
de língua de comunicação entre os portugueses e os diferentes povos Tupi que
ocupavam a costa do Salgado e o baixo Amazonas. Mas a esta função se foram
acrescentando outras no processo histórico de sua expansão.
Cabe aos
especialistas o estudo - o que ião foi feito até hojedas razões
intra-lingüísticas que expliquem porque essa variedade se consolidou na
Amazônia. Talvez a introdução, do Nheengatu como língua franca - e mais que a
introdução, sua expansão e consolidação - tenha sido em grande medida
facilitada pelo fato de que eram tupis grande parte dos povos que habitavam, no
momento da Conquista, as vias de mais fácil acesso. Acuña, referindo-se as regiões do baixo Amazonas, observa que eram "todas
povoadas de diferentes nações e línguas, se bem que na maioria entendem a geral
daquela costa" (ACUÑA: 1641, p. 280).
A difusão inicial
do Nheengatu se fez em forma não sistemática, quase espontânea. A partir do
momento em que nas "aldeias domésticas" ou de repartição começaram a
ser estocados índios não-tupi, estas aldeias começaram a ter um papel
importante no ensino da língua franca, que passou então a ter também a função
de língua de comunicação interétnica.
Muito pouco se
conhece sobre o dia-a-dia das aldeias de repartição e o ensino do Nheengatu,
mas algumas evidências nos levam a pensar que o papel que elas desempenharam em
relação ao Nheengatu foi - guardadas as distâncias históricas -
similar ao papel que mais tarde a escola jogaria para a difusão da língua
portuguesa.
Nas primeiras
décadas, quando os missionários detinham apenas o "governo
espiritual" e os colonos o "governo temporal", surgiram muitos
conflitos entre os capitães-de-aldeia e os missionários. A catequese e o
ensino da lingua eram dificultados pila permanência muito
curta dos índios nessas aldeias, uma vez que eles eram requeridos para o trabalho nas lavouras de tabaco, nos engenhos de açúcar e nas coletas de
drogas durante quase todo o ano; se bem que a catequese era mais sacrificada que a língua porque a
comunicação mesmo precária no trabalho era em Nheengatu, o que implicava numa
aprendizagem, mesmo rudimentar, "por imersão".
Podemos supor -
mesma sem documento de apoio - que neste período inicial o Nheengatu devi ter
convivido em forma assimétrica com algumas línguas indígenas nos índios que as
falavam, tornando-os bilingues. Come os portugueses, ao aprender o Nheengatu,
evidentemente não abandonavam sia língua de origem, se estava em uma situação
em que uma comunidade lingüística detinha os meios de produção e a força de
trabalho era proporcionada por comunidades de línguas diferentes.
Se esta situação
existiu, ela logo evolui porque a medio prazo a
tendência da "Língua Geral" ira servir como ponte para os índios abandonarem
suas línguas maternas, que eram reprimidas. Com o Regimento das Missões (1686) - instrumento pelo qual
a Coroa Portuguesa entregou aos missionários o "governo temporal e
espiritual" sobre os índios - os padres intensificaram os descimentos de
índios de suas aldeias de origem, em proporções enormes, até então
desconhecidas superlotando as aldeias do repartição. Segundo Baena, entre 1687 e 1690, es missionários "só de alguns sertões dos rios Tocantins, Amazonas e
Negro, no breve espaço de quatro anos, descoram cento e oitenta e quatro mil e
quarenta selvagens (184
040) reduzidos ao gremio da
Igreja Católica e obediência de El Rei" (BAENA: 1831, p. 247).
Os missionários
continuaram a divulgação do Nheengatu para um número cada vez maior de índios e
agora, em forma mais estável, já que pelo novo Regimento, os índios menores de
13 anos tinham garantida a permanência nas aldeias durante todo o ano, enquanto
os demais ficavam 6 meses na aldeia, sendo alugados durante os outros 6 meses,
num sistema rotativo que garantia sempre a presença da metade de sua população
considerada adulta junto aos padres (MALHEIROS: 1866, p. 53-54).
O Nheengatu, como
idioma oficial das missões da Amazônia, passou a ser ensinado com uma certa
sistematização aos índios de diferentes familias lingüísticas estocados nas aldeias de repartição.
Um ano antes do Regimento, em 1685, a gramática e o
dicionário de "Língua Geral" elaborados pelo padre Luis Figueira em 1621 foram re-editados, encontrando-se
exemplares desta edição no Maranhão é no Pará.
Nas aldeias de
repartição, os missionários "abriam colegios e ensinavam a ler e escrever em determinadas horas
do dia, passando depois os discípulos as oficinas em que aprendiam várias
artes mecânicas". Com a língua, os índios aprendiam ofícios de
"pedreiros, oleiros, carpinteiros, ferreiros, sapateiros, pintores,
tecelões". O resto do dia era dedicado ao trabalho produtivo em beneficio
dos missionários e "as noites eram reservadas para os serões e ensino das
doutrinas cristãs" (RAIOL, p. 143-144).
Podemos supor
também - pelos resultados posteriores - que muitos desses índios menores,
arrancados de suas famílias, terminaram monolingües em língua geral. Quanto aos índios escravos, a
aprendizagem, mesmo precária, da língua geral, continuava se fazendo em
contato com outros índios ou com seus próprios proprietários que a falavam.
Tres anos após o Regimento das Missões, a Coroa
Portuguesa, reconhecendo uma situação que já existia de fato, decidiu oficializar o Nheengatu como língua da Amazônia,
incentivando o seu ensino a Carta Régia de 30 de novembro de 1689 determinou que os missionários deviam
ensiná-lо não apenas aos
índios, mas também aos próprios filhos dos portugueses concentrados nos
embriões de núcleos urbanos que se formavam na região (KIEMEN: 1949, p. 170).
Desta forma, o
Nheengatu passou por um processo de evolução e foi sendo construido em contato com a língua portuguesa falada pelos colonos
e missionários e em contato com as línguas de diferentes povos tupi e não-tupi
faladas por milhares indios que anualmente eram estocados nas aldeias de
repartição, como tamben pelos mestiços e até mesmo pelos negros africanos que a
partir do final do século XVII começaram a ser introduzidos na área
inicialmente em quantidades reduzidas.
A política de
Portugal até a década de 1720 foi de franco incentivo pelo que isto
representava em termos de rentabilidade da colônia. Ainda em 1722, o rei de
Portugal repreendia duramente os Carmelitas, os Mercedários é os Franciscanos da Amazônia, exigindo que enviassem ao
sertão para o descimento de índios apenas os missionários capazes de falar a
"língua geral" tão fluentemente como os jesuítas. A Coroa Portuguesa
recomendava o ensino do português apenas aos índios que já tivessem aprendido o
Nheengatu é com ele os rudimentos da doutrina cristã (SWEET: 1974, p. 106).
Um balanço do
primeiro século de colonização portuguesa
(1616-1720) mostra que, numa certa medida, esta política oficial obteve um
grande êxito no que diz respeito à "Língua Geral" é isto pode ser observado
se, além do Nheengatu, buscamos saber o que aconteceu neste período com as
demais línguas: as indígenas é a língua portuguesa.
Em primeiro
lugar, o Nheengatu sé tornou efetivamente a língua de comunicação interétnica
falada pelos diferentes povos da Amazônia que foram sendo obrigados a
integrar-se ao sistema colonial e a língua usada nas escolas das aldeias, e das
cabeças de capitanias. Em 1720, havia apenas no Pará - não incluindo o Maranhão
- 63 aldeais com 54 264 índios aldeados que, dependendo da eficiência
missionária dominavam em maior ou menor grau a "Língua Geral" que era
também usada péla quase totalidade dos 1 000 portugueses é pelos mestiços e
ainda pelos índios escravos calculados em não menos de 20 000, sem contar os
índios "livres" é escravos do Maranhão (RAIOL, p. 132).
Em segundo lugar,
as línguas indígenas a indiscutível expansão do Nheengatu havia sido realizada
em detrimento das demais línguas indígenas, condenadas à extinção, em menor
escala porque eram abandonadas em tanto que línguas maternas pelos índios que
as falavam, mas sobretudo por causa do extermínio físico de muitos povos.
Neste sentido,
uma análise da política de mão-de-obra no período colonial pode aportar
respostas muito mais profundas sobre o destino das línguas que um estudo
específico e particularizado sobre a política de línguas. Na Amazônia, estava
ocorrendo um processo idêntico ao assinalado por Romano para outras regiões da
América. O sistema se caracterizava por "uma exploração de rapina da força
de trabalho, como resposta as necessidades de uma
economia dominante que não coloca em movimento retornos capazes de criar outras
riquezas". Nestas condições, a única economia possível era sobre a força
de trabalho (ROMANO: 1972, p. 154).
Como
consequência, durante este período, a Amazónia passou por uma das mais grandes
catástrofes demográficas e por um processo irracional de "aménagement
du territoire". A calha central do grande rio e de alguns
de seus principais afluentes sofreu um processo de enorme depopulação, afetando
a vida dos povos que habitavam a região densamente povoada antes. Agora, os
índios que sí habitavam, falando o Nheengatu, ocupavam
as aldeias de repartição situadas não em seus territórios de origem, mais em
locais que atendiam aos interesses colonias, e muitos
outros grupos, diante do terror espalhado
pelas tropas de "resgate" e "guerras justas", haviam fugido
procurando as cabeceiras dos rios e os santuários inacessíveis, protegidos por
cachoeiras. Estas tropas de recrutamento, conformadas por missionários e
soldados armados, constituiram uma verdadeira praga para os índios e foram responsáveis
por um movimento migratório, constante e permanente, obrigando muitos povos a
fugir na maioria das vezes sem uma direção precisa, chocando-se freqüentemente
com grupos que habitavam os territórios por eles procurados. Estes movimentos
migratórios, que estão a espera de pesquisas, originaram profundas modificações
no que diz respeito a organização social, padrões de ocupação e situação
lingüística de muitos grupos.
Um exemplo
ilustrativo desta situação pode ser dado pelo caso do povo Tarumã, que habitava
o baixo rio Negro, nas imediações de onde, hoje se situa a cidade de Manaus. Os
missionários chegaram mesmo a estabelecer aí uma aldeia no século XVII, que
não prosperou. Os Tarumã, fugindo das tropas portugueses e particularmente dos
massacres de Pedro da Costa Favela, foram se deslocando progressivamente em
direção ao norte, até chegar ao rio Essequibo, na Guiana Britânica, onde foram
encontrados no inicio do século XIX (1837), em número de
500, pelo viajante alemão Robert Schomburgk, depois de haverem percorrido mais
de 2 000 km (LOUKOTKA: 1949, p. 55).
Em sua fuga, os
Tarumã foram invadindo territórios de povos que falavam línguas da família
Aruak, com quem mantiveram neste momento diferentes tipos de relação; mas eles
acabaram se localizando finalmente ao norte, em pleno território Karib, onde se
reconstituiram num processo de assimilação com povos vizinhos, de origem
Karib. Hoje, a língua Tarumã está extinta e não existe nenhum grupo que se
reclame desta identidade; os Tarumã foram, ao que parece, assimilados junto
com outros povos, pelo atual grupo Wai-Wai (MEGGERS: 1977, p. 108).
A solução
encontrada por Loukotka, que estudou especialmente o caso Tarumã, foi
classificá-la como "língua isolada", enquanto Paul RIVET (1924, p. 643) já a
havia considerado anteriormente como Aruak e outros autores
соmо Karib (MEGGERS: 1977, p.108). Loukotka reconhce a
existência, no léxico Tarumã, de termos emprestados das tribos Aruak e mostra,
numa lista de itens lexicais, o parentesco com a língua Karib, ainda pouco
considerável (LOUKOTKA: 1949,
pp. 55-56).
Por idêntico
processo passaram os Aruan, família Aruak,
habitando originalmente a costa norte do Marajó e a ilha Caviana. Eles haviam
participado ao lado dos holandeses na luta contra as tropas lusas de Banto
Maciel Parente na região do Gurupa. Resistiram durante mais de um século aos
ataques dos portugueses e no inicio do século XVIII uma parte do grupo foi
transferido a força pelos portugueses para a região do baixo Tocantins, onde
constituiram um povoado com o nome de Muru, para desaparecerem em seguida
соmо entidade étnica (ADONIAS: 1953, p. 241). A outra parte dos Aruan iniciou uma longa migração-fuga pelo Amapá
em direção à Guiana Francesa, onde foram encontrados no final do século XIX por
H. COUDREAU (1866, pp. 220-224). Data de 1926 a ultima
informação sobre este grupo: Curt Nimuendaju dá
conta, nesta data, de um grupo ainda identificado соmо Aruan,
mas falando o dialeto "créole" francês (HEMMING : 1978, p. 607). Hoje não existe nenhum povo que se reclame
desta identidade.
Como os Tarumã e
os Aruan ocorreram muitos casos similares. Até mesmo grupos que não tiveram
contatos violentos tão freqüentes com as tropas portuguesas,
passaram por processo de mudanças culturais ou de território, como é o caso
dos Baniwa do rio Aiairy, que não sofreram perdas graves com os resgates, mas
absorveram em sua organização tribal escravos fugidos que pertenciam a outras
filiações lingüísticas (ROBIN: 1980).
Contudo, esta
política colonial não atingiu apenas as línguas indígenas; a expansão do
Nheengatu, incentivada pela Metrópole, foi tão grande que ultrapassou os
limites admissíveis pela Coroa Portuguesa, porque começou a afetar a função da
própria língua portuguesa, ameaçando o seu destino na região.
Caberia ainda
perguntar em que medida esta expansão do Nheengatu, majoritário, interferiu
também na estrutura da variante regional da língua portuguesa, minoritária, que
com ele convivia. Uma revisão das cartas, relatórios e registros do Pará, neste
período, - muitos quais publicados pela Biblioteca e Arquivo Público do
Pará (ABAPP) - e dos relatórios da
Capitania do Rio Negro do final do século XVIII - alguns dos quais publicados pelo "Archivo do Amazonas" -
documentam este delicioso português regional que faria tremer os puristas da lingua como até mesmo os membros do então Conselho
Ultramarino de Lisboa. Mas estas prováveis interferências do Nheengatu no
português amazônico da época constitui já um outro problema, que não nos compete.
Aqui nos interessa outro tipo de interferência relacionada às funções
desempenhadas històricamente por essas línguas.
A função do
Nheengatu ara de comunicação interna e seu uso era fundamentalmente oral,
escolar, familiar e corrente, enquanto a língua oficial da colônia, a língua da
administração, da justiça, a língua usada na
Câmara do Senado, a língua escrita, era o português, que desta forma servia de
elo comunicativo entre a colônia e a Metrópole. Todos os relatórios da
administração local e toda a correspondência oficial eram redigidos em
português.
Aconteceu que a
expansão do Nheengatu começou a interferir neste elo comunicativo, impedindo
que a língua portuguesa continuasse desempenhando sua função. Esta
interferência se deu em dois níveis estreitamente relacionados: uma mais geral
e outro particular.
Em primeiro
lugar, a situação criada ira bastante diferente da quе ocorria naquele
momento no litoral brasileiro: a língua da colônia portuguesa da Amazônia não
era o português, mas a "Língua Geral", o que significava que, para
comunicar-se com os seus súditos a Coroa Portuguesa era obrigada a passar por
um intermediário, no caso, os missionários e mais particularmente, os jesuítas.
Uma vez que estes últimos adquiriram uma relativa autonomia começaram a recusar
o papel de "intérpretes" dos interesses da Coroa para cuidar dos seus
próprios interesses - materiais e espirituais - o que representava uma ameaça
de isolamento da administração colonial.
"Os
missionários eram senhores da escola, do púlpito e do confessionário; dominavam
a razão e a consciência dos índios pelo ensino e pelas prédicas" (RAIOL,
p. 144).
Com a lingua, os missionários controlavam toda a enorme força de
trabalho concentrada nas aldeias dc repartição e
passaram a usá-la plenamente em suas múltiples empresas mercantilistas,
monopolizando a produção, o comércio e a prestação de serviços da colônia.
Gozando de isenções de imposto, estas empresas prosperaram enormemente. Com o poderio econômico e político
fortalecido na região, os missionários passaram a reter os índios em suas
empresas e a recusar a liberação deles das aldeias, onde "não admitiam
pessoas estranhas", recusando os insistentes pedidos de aluguel requeridos
não apenas pelos colonos, mas também para o próprio serviço real da Coroa
Portuguesa, qüestionando desta forma sua soberania. Multiplicaram-se os
conflitos entre missionários e a administração colonial.
Enquanto este
primeiro nível estava ligado ao uso da mão-de-obra, o segundo dizia respeito ao
funcionamento da própria máquina burocrática colonial. Os governadores e
funcionários que periodicamente eram enviados de Lisboa e que desconheciam a
"Língua Geral" encontravam problemas em comunicar-se não apenas com a
população, mas algumas vezes, até com seus subordinados mais diretos.
Ambos níveis de
interferência foram percebidos na época pelos representantes do poder colonial
e várias medidas foram tomadas para "corregí-los". A partir deste
momento, a política de línguas de Portugal para a
Amazônia sofreu uma mudança radical. Paralelamente as decisões visando
enfraquecer o controle dos missionários sobre a mãо-de-obra indígena,
como aqueles que tendiam a suspender a isenção de impostos que gozavam, as
missões, foram tomadas uma série de medidas destinadas a tentar substituir o
Nheengatu, como língua franca, pela língua portuguesa.
As primeiras
medidas foram de caráter repressivo e não sairam do quadro legislativo. Em
carta ao governador e capitão general do Estado do Maranhão e Grão-Pará,
datada de 12 de setembro de 1727, o rei de Portugal proibiu o uso da língua
geral nas povoações de colonos e até mesmo nas aldeias indígenas, determinando
aos missionários que
"os índios
que saõ da administração de suas Religiões sejam bem instruidos na língua
portuguesa, pelo grande benefício que disso pode resultar ao serviço de Deos e
meu, e da mesma maneira os inclinem e reduzam a trabalharem nos ofícios
mecânicos".
A mesma carta
determinava que os colonos, "com que se repartem os índios, tenham a mesma obrigação de lhes ensinarem a
língua portuguesa"(ABAPP: 1727).
Entretanto, falar
ou não o Nheengatu, não dependia mais de um decreto. E além de decisões
legislativas e de recomendações carregadas de intenções, a Coroa Portuguesa
nãо ofereceu, em termos imediatos, nenhuma alternativa concreta de
modificação deste quadro que permitia, justamente, a difusão da "Lingua Geral". Por esta razão, estas decisões,
destinadas a "beneficiar a Deus e ao Rei", não puderam ser cumpridas
e sem missionários ou colonos tinham interesse que o fossem a língua portuguesa
continuou desconhecida e o Nheengatu seguiu em franca expansão em toda a
Amazônia, conforme provam os documentos oficiais da época e estudos
posteriores (SAMPAIO: 1955,
pp. 47-52 e SILVA NETO:
1950, pp. 58-86).
Trinta anos após
a proibição do Nheengatu, nos anos de 1750
"A língua portuguesa estava realmente quase banida da capitania. Em Belém e São Luiz todos falavam a tal Lingua Geral, sem excetuar as famílias dos colonos e as pessoas gradas. Os
jesuítas a usavam até nos sermões e prédicas" (RAIOL, p. 148).
Os conflitos
entre os jesuítas e a Coroa Portuguesa se desenvolveram na própria Metrópole
com a interferência de uma série de outros fatores cuja análise transcende aos
objetivos deste artigo. Na Amazônia, esses conflitos se re-escreveram em torno
desses dois fatores: o controle da mão-de-abra e a variável lingua, um subordinado ao outro. Cada vez mais agudos e
frequentes, esses conflitos só iriam terminar com a expulsão dos jesuítas e a
confiscação de seus bens pela Coroa Portuguesa, na segunda metade do século
XVIII.
Neste momento,
Portugal se encontrou diante de uma situação "diabólica": o
governador recém-chegado, Xavier de Mendonça Furtado, meio-irmão do todo
poderoso Marquês de Pombal, super-ministro do rei de Portugal, não conseguia
comunicar-se com a maioria de seus funcionários na década de 1750. O novo
governador, que não falava a Língua Geral, ficou horrorizado porque bastava
deixar o palácio do governador em Belém para encontrar dificuldades em se
fazer entender. Ele mesmo conta que, uma vez, apresentado aos filhos de um dos
principais lusos da colônia, homem de posses, descobriu que as crianças falavam
fluentemente a Língua Geral e apenas entendiam, muito pouco, a língua
portuguesa. Em outra ocasião, o governador escutou uma conversa em baixo da
janela da sua residência entre dois escravos africanos também recémchegados na
região e que já haviam aprendido a falar a Língua Geral, em plena capital de
Belém, mas ignoravam completamente o português (ABAPP: 1759).
Os mesmos
argumentos preconceituosos usados cem anos antes contra as múltiples línguas indígenas e que acabaram favorecendo o
Nheengatu foram retomados para condenar a "Língua Geral". O discurso
seiscentista foi recuperado no século XVIII. Para Mendonça Furtado, o Nheengatu
era
"a perniciosa
e abominável língua que aqui improprissimamente deram o nome de geral, cuja
diabólica invenção produziu nestas partes a real separação das gentes na
confusão e desordem que a V.E tem sido bem
evidente"(АВАРР: 1759).
Os produtores
deste discurso não foram apenas os agentes diretamente comprometidos com o projeto colonial luso, como o governador Furtado. La Condamine, que visitou a região neste período, em relatório lido na Academia de Ciências da França em abril de I745,
informa que as várias línguas indígenas "manquent de termes pour
exprimer les idées abstraites et universelles ... Il n'y a pas de mot propre
qui réponde exactement à ceux de vertu, justice, liberté, reconnaissance,
ingratitude". Quanto ao Nheengatu,
ele constata que havia sido "pareillement
introduite dans toutes les missions portugaises", mas era igualmente degenerado, entre outras razões, porque "leur
arithmétique ne va pas plus loin" que a das demais línguas indígenas.
"La langue brésilienne parlée par des peuples moins grossiers est dans la même disette et, passé le nombre de trois, ils sont obligés, pour compter, d'emprunter le secours de la langue portugaise"(LA CONDAMINE, pp. 63, 68, 89).
Depois de um
século e meio, a língua que havia servido como língua franca e de unidade
regional para uma maior rentabilidade da conquista, passou a ser vista como
"diabólica" e incapaz de "traduzir" os interesses
coloniais. E quе os tempos eram agora outros e a Coroa Portuguesa tinha
um novo projeto para a região.
Muitos povos que
antes habitavam as áreas de mais fácil acesso haviam sido exterminados
completamente e com eles, suas línguas; outros, num processo acelerado de
destribalização, estavam estocados nas aldeias domésticas e haviam abandonado
suas línguas maternas pelo Nheengatu e finalmente, a fuga desordenada de outros
grupos para as cabeceiras dos rios deixaram despovoados extensos territórios.
As disputas da
Coroa Portuguesa com outros países europeus pelas fronteiras móveis da Amazônia
entravam numa nova fase, diferente do período anterior. Os tratados de Utrecht
(1715), Madrid (1750) e Santo Ildefonso (1777) reconheceram a expansão portuguesa e
permitiram a incorporação legal por parte de Portugal de vastas terras (SERRÃO:
1976).
Esta nova
situação havia criado as condições para as novas medidas que davam aos povos
indígenas um novo estatuto e aceleravam o seu processo de integração,
integração a uma sociedade portugalizada que ainda não existia e que era
necessário construir para consolidar a incorporação à Portugal do território
amazônico. Para tanto, impunha-se no plano de línguas, portugalizar a Amazônia
como jà vinha ocorrendo em outras áreas do Brasil, inclusive como uma medida
para garantizar a unidade territorial da colônia
portuguesa.
O Marquês de
Pombal tinha não apenas a intenção de portugalizar a região, mas pretendia
dotar-se dos meios necessários para tal, lançando as bases de um novo e
audacioso projeto para a Amazônia que modificasse as condições objetivas e o
terreno propício onde florescera o Nheengatu e derrubasse os obstáculos para a
expansão da língua portuguesa.
Para tanto, foram
tomadas uma série de medidas. A primeira delas consistiu na expulsão dos
jesuítas: a Coroa Portuguesa, sem intermediários, se comunicaria diretamente
com os índios, transformados em súditos de novo tipo e declarados formalmente
livres. Argumentando que "a escravidão dos índios não pode conduzir a
prosperidade da colônia", Pombal aboliu, no plano legal, a escravidão
indígena. Quanto às aldeias onde estavam agrupados os índios ditos
"livres", elas foram transformadas, formalmente, em vilas, lugares e
povoados que, em princípio, deveriam funcionar administrativamente segundo o
modelo das povoações lusas, dependo os juízes ordinários, vereadores e oficiais
de justiça serem escolhidos, quando possível, entre os próprios índios
(D'AZEVEDO: 1901, p. 26
). Estas aldeias, num gesto carregado de simbolismo intencional, tiveram sua toponímia modificada, perdendo seus nomes indígenas e sendo
rebatizadas com nomes de vilas existentes na Metrópole, muitos dos quais se
conservam até os dias de hoje.
Instalar um
pelourinho, decretar que as aldeias não eram
mais aldeias e sim vilas e mudar-lhes os nomes indígenas, não podia, como num
passe de mágica, fazer com que os índios que nela habitavam recebessem o
Espírito Santo em forma de língua de fogo e começassem a falar o
português. Consciente disso, Pombal pretendia injetar sangue luso dentro destas
aldeias rebatizadas para, desta forma, alterar o quadro demográfico da região,
modificando em termos quantiativos a co-relação entre lusos e índios,
desfavorável até então aos primeiros. O seu projeto de colonização e
povoamento estimulava a migração massiva de colonos portugueses para ocupar os
territórios de onde os índios haviam sido expulsos, com a concessão gratuita de
terras (sesmarias) e de instrumentos agrícolas aos novos colonos, bem como a
insenção de impostos régios. Os colonos lusos que se casassem com as mulheres
indígenas receberiam, além disso, privilégios adicionais (MOREIRA NETO: 1971, p. 334).
Em 1755 é criada a Companhia Geral do Grão Pará e Maranhão
para coordenar este projeto, cujo objetivo, a nível econômico, era a instalação
de grandes empresas agrícolas que deveriam substituir os produtos
extrativas de exportação. A força de trabalho principal prevista para estas
empresas agrícolas já não eram os índios, mas os negros africanos que deveriam
ser importados, em grandes quantidades, à semelhança do que ocorrera no litoral
brasileiro.
A língua
portuguesa devia fortalecer-se na região com a chegada dos novos colonos e
соm a utilização do veículo escolar. A nova administração mantém a
proibição do Nheengatu e toma medidas para a difusão e ensino do idioma
português. O governador Furtado trouxera instruções precisas para o
funcionamento destas escolas em língua portuguesa em toda a colônia, devendo,
para este fim, obter a colaboração dos colonos, a quem o governador chegou a
amaçar com tirá-lhes os índios se eles -colonos- não cumprissem esta
determinação.
"Havia duas
escolas em cada aldeia uma para o sexo masculino e outra para o feminino. As
meninas aprendiam mais a fiar, costurar, fazer renda e os demais misteres
próprios da mulher. Era proibido o uso da chamada língua geral ... era obrigado
a fazer vulgarizar a língua portuguesa, não consentindo que se falasse outra
nas escolas" (ACCIOLY: 1883, p. 78).
Este regulamento
de 3 de maio de 1757 foi confirmado por alvará de 17 de novembro de 1758. Contudo,
apesar desta vontade deliberada e expressa da Coroa gara portugalizar rapidamente a região, tal não ocorreu,
registando-se apenas o inicio da penetração lenta da língua portuguesa na parte
oriental,- atual Estado do Pará - enquanto na Amazónia ocidental, antiga
capitania do Rio Negro, hoje Estado de Amazônas - o Nheengatu permaneceria por mais um século ainda como língua franca. Este
fato pode ser explicado pelos resultados do projeto pombalino, ao qual estava
ligado o destino da língua portuguesa neste momento.
O projeto de
Pombal fracassou nos tres
níveis que se interligam vam:
o econômico, o demográfico e o escolar.
No plano
econômico, o projeto, apoiado em condições conjunturais do mercado mundial de
algodão e açúcar, faliu e a Companhia Geral do Grão-Pará e Maranhão foi extinta
em I778. Os produtos agrícolas neste período não
chegaram a adquirir maior importância que os produtos extraídos da floresta, o
que iria repercutir na organização das aldeias e no programa escolar, uma vez
que o trabalho de coleta absorvia os índios completamente fora das aldeias
(CARDOSO-MULLER: 1977, pp. 23-24).
Os índios que
viviam nestas aldeais rebatizadas como vilas não tiveram a menor poder de
decisão, como previsto inicialmente, porque logo foi criado o "Diretório
de Indios" (1757); encarregado de disciplinar o trabalho indígena e
administrar as aldeais. Esta instituição, longe de acabar com o trabalho
compulsório, deu-lhe apeias outra organização, cujo mecanismo principal residia
no sistema de concessão de índios por meio de Portarias. Os Diretores de Indios, representantes do Governador nas aldeias, estavam
encarregados pelo artigo 6°da lei que criou o Diretório, de "ensinar a
língua portuguesa", mas esta medida não foi aplicada (MALHEIROS: 1866, p.
110 - ACCIGLI: 1883, pp. 74-75).
O visitador
Manoel da Silva Azevedo, funcionário enviado pela Metrópole poucos anos depois,
afirmaria que "os índios fugiam e os diretores se locupletavam com o
trabalho dos poucos que ficavam, enviando-os à coleta" (de drogas do
sertão) (D'AZEVEDO: p. 311). Eles foram acusados de "fidalguetes";
por haverem transformado as aldeias em feudos privados, "verdadeiros
ducados; marquezados e condados livres"(FERREIRA : 1786, p. 160).
Os índios na
coleta, as aldeias ficaram quase sempre vazias, o que dificultava qualquer
atividade de ensino, para a qual os diretores de índios não estavam nem
preparados nem interessados. Nos raros casos onde continuava a existir um
missionário - os carmelitas permaneceram no Pará, - mas completamente
destituídos de poder - o ensino do português não prosperava porque, como
observou um testemunho ocular da época para a região do rio Madeira:
"Os índios de
nenhuma sorte consentem que filhos seus menores se apartem do seu seio e não
gorem se unir as vilas e lugares pela opinião que entre eles ha, que os querem
escravizar"(MOREIRA NETO, p. 13).
Esta situação
continuaria por muitas décadas, em muitas vilas do Pará, como Gurupá, onde
"existe uma só escola, em que o Mestre ensina primeiras letras, Gramática
Portuguesa ... e a frequência dos meninos é interrupta muitas vezes pelos
pais"(BAENA: 1842,
p. 326).
No que se refere
ao aspecto demográfico, apenas no território do Maranhão e no baixo
Amаzоnas houve um incremento populacional nãо indígena decido
sobretudo ao contingente de escravos africanos e em menor escala de colonos
portugueses aí introduzidos; no entanto, a Amazônia ocidental permaneceu
praticamente intocada, neste aspecto.
Com relação à
população indígena das aldeias, ela diminuiu sensivelmente. As 63 aldeias do
Pará, que em 1720 tinham 54.264 índios aldeados continuavam existindo em 1750,
mas com umа роpulаçãо reduzida devido às
epidemias que desde 1743
haviam sido responsáveis pela
morte de 40 000 índios. A partir de então a situação se degradaria ainda
mais. O sargento-mór Vasco de Braun procedeu em I788, por ordem da Metrópole, um censo da região, cujo
resultado mostrou que muitas aldeias que contavam 200, 300 e mais casas, ou tinham desaparecido ou estavam "reduzidas a feia
dúzia de palhoças" (RAIOL: pp. 133-134).
A falência do
projeto de portugalização acompanhou assim, de perto, a falência do projeto
agrícola.
Em 1798, a rainha
dona Maria I, dita "A Louca", extingue o Diretório de Indios e decide que "(o)s indios fiquem sem
diferença dos outros meus Vassallos, sendo dirigidos e governados pelas mesmas
leis que regem a todos aqueles de diferentes Estados que compõem a
Monarquia"(APA: 1798).
Na realidade, no
lugar do Diretório foi montada outra estrutura, militarizada, para enquadrar a
mão-de-obra. Na mesma carta citada, a rainha determinava ao governador de
"ordenar e formar os índios que já vivem em aldeias permanentes com os
outros, em Corpo de Milícias". Ao lado de Corpo de Milícias, o Corpo de
Trabalhadores, um "corpo efetivo de índios ... enquanto os houver como
mais robustes e capazes de suportar o trabalho".
Ela determinou ainda o uso obrigatório de uniforme pelos índios, havendo mesmo
dado instruções detalhadas sobre o modelo da farda (APA: 1798, p. 23).
Este período de
1798 a 1822 - data da independência política do Brasil - é caracterizado pela
extrema violência das guerras oficiais e declaradas de extermínio em diferentes regiões do Brasil e pela ausência
de medidas explicitas referentes as línguas, ainda que, implicitamente, outras
medidas vinham confirmar a intenção de portugalizar a Amazônia.
Dona Maria I
decide que "todo aquele indivíduo livre que quizer estabelecer-se nas
terras e povoações dos gentios lhe será concedida licença para isso",
reafirmando ainda a liberdade de qualquer colono luso para comerciar
diretamente com os índios, permitindo a "introdução de todos os gêneros de
que carecem, a excepção de armas de fogo e armas brancas" (APA: 1798, p. 27).
Com esta
proibição, se reconhecia que os índios necessitavam de
armas de fogo, o que tinha um sentido muito preciso: e que a resposta dos
índios a militarização do trabalho-foi também uma resposta militar e
organizada; durante todo o século XVII, as revoltas indígenas haviam sido
constantes, mas se tratava de brotes isolados, esmagados com uma relativa
facilidade pela superioridade das armas lusas; no século XVIII, houve uma
mudança qualitativa, quando o chefe Ajuricaba do povo Manaús, logra formar uma
espécie de confederação de povos do rio Negro de diferentes filiações lingüísticas para lutar contra o invasor português.
Neste caso, não temos dados precisos sobre o papel jogado pelo Nheengatu como
meio de comunicação entre os diferentes povos da Confederação. A rebelião de
Ajuricaba foi esmagada, os Manaús completamente exterminados, sem um só sobreviviente para contar a história (AHU: 1728 e AHU:
1758). Deles restou apenas, irònicamente, o nome dado a capital do Amazonas - a
cidade de Manaus - hoje com quase um milhão de habitantes, e alguns dados
lingüísticos contidos num catecismo em língua Manaús, de autor anônimo,
intitulados "Quaderno de la doutrina pella lingoa dos Manaos", cujo manuscrito
original se encontra no British Museum (LOUKOTKA: 1968). Mas ficou também o
exemplo: durante todo o período que antecedeu à Independência, uma sucessão de
rebeliões indígenas, pouco estudadas, se espalham pela Amazônia e todas elas
são ferozmente reprimidas.
O processo de
depopulação continuou em forma acelerada, afetando não apenas os povos
"em guerra" contra Portugal, mas também a população aldeada. Na
primeira década do século XIX, "a povoação de São Miguel, formada. pelos
índios Barés, tinha tido 700 fogos e achava-se reduzida a 4 e estes mesmos
deixaram de existir, decorrido pouco tempo". O mesmo aconteceu com a
aldeia de Santa Barbara, formada pelos índios Manibas, que de 400 fogos foi
reduzida a 10, desaparecendo em seguida. Loreto, Olivença, Tabatinga, Borba e tantas outras aldeias
passaram por idêntico processo (RAIOL, p. 134; MIRANDA: 1840, pp. 56-61).
Apesar de todo o
processo, após a Independência (1822), "os índios constituem o maximum de população da Amazônia" e continuavam sendo
a fonte mais importante de mão-de-obra; os índios continuavam sendo
escravizados, "porque (os colonos) diziam não ter outros braços com que
promovessem a sua agricultura" (ACCIOLI: 1883, p. 72).
Os índios das
antigas aldeias de repartição que sobreviveram continuavam submetidos ao
sistema militarizado e os dados sobre o ensino do português neste período são
por nós desconhecidos. Enquanto os índios que viviam em suas tribos eram
submetidos a uma verdadeira caçada armada como forma de
recrutamento. A Independência do Brasil significou na Amazônia apenas um
recrudescimento da exploração da mão-de-obra indígena agora patrocinada pelo
Estada brasileiro, que assumiu a mesma ideologia anti-indígena do colonizador português.
Contra este
sistema é que se levanta a população da Amazônia na explosão de uma das mais
sangrentas insurreições de toda a História do Brasil, conhecida pela nome de
"Cabanagem". A Cabanagem foi um movimento nativista popular armado
que envolveu grupos indígenas autônomos, a massa de índios das aldeias, índios
destribalizados (ou tapuiás), os caboclos mestiços, os negros, todos
"unidos em pacto secreto a dar cabo de tudo o que é branco", segundo
o general Soares Andrea,
responsável pela repressão ao
movimento; este general se referiu à cabanagem como uma "guerra
racial", com bastante propriedade, já que ela teve características muito similares à "guerra de castas" do
Yucatan, no México, também no século XIX (MOREIRA NETO: 1971, p. 14-15).
O balaço oficial
da guerra da Cabanagem que durou uma década foi de 40 000 mortos "deixando
o Pará e o Amazonas menos povoados que um século antes" (ABREU: 1899, p. 83).
Um aspecto que
merece uma atenção particular sobre a Cabanagem
- movimento tãó pouco estudado na história regional - é o
fato de que os "cabanos" - "esses índios, caboclos e negros
vestidos com um uniforme vermelho tingido com casca de murici" (PINTO: 1980, p. 3) tinham em comum, além da situação de
opressão, o fato de que falavam o Nheengatu, usada, pelo menos no Amazonas,
como língua de intercomunicação entre eles.
Desconhecemos a
existência de mapas de difusão do Nheengatu e da língua portuguesa na região
amazônica, que bem poderiam mostrar como, em meados do século XIX, após a
cаbanаgem, a língua portuguesa só havia adquirido uma relativa
hegemonia na foz do rio Amazonas, enquanto o Nheengatu continuava ainda como
meio universal de comunicação para o resto da Amazônia. E isto porque a
Amazônia Ocidental continuava dependendo integralmente do trabalho indígena,
neste período.
Inexistem dados
estatísticos globais para o conjunto da Amazônia nesta época. No caso da
recém-criada Província do Amazonas (atuai Estado do Amazonas), o primeiro censo
- censo nominal de 1852,
após o desastre demográfico
da Cabanagem - dá um total de 29 798 habitantes recenseados,
vivenda num território de 1 500 000 por km2 (APA: 1852). Apesar das
dificuldades encontradas, "o seu resultado, em geral, é mais conforme às
regras da estatística, segundo relatório posterior
de um presidente da Província (APA: 1863, p. 33).
Anteriormente, em
1840, se havia feito uma estimativa sobre a
população vivendo na região; seu resultado mostrava que apenas 8,5% da população era considerada "branca",
2,5% de negros, 57,5% de índios e 31,5% mestiços (APA: 1840). Isto se levarmos
em conta apenas aquela população que foi recenseada: os índios que continuavam
vivendo em aldeamentos não-tribais; quanto aos índios classificados
соmо isolados, arredios, hostis ou pacíficos, que
não foram considerados pelo Censo, as estimativas, apenas para a Província do
Amazonas, variam entre 100
a 400 000 índios neste
momento (APA: 1860, pp. 16-17).
Após a
Independência do Brasil (1822), o Amazonas constituía assim a única unidade
política que não havia sido portugalizada e que permanecia maioritariamente
indígena. Esta situação iria durar ainda por mais meio século e seria o Estado
brasileiro o encarregado de modificála.
A Lei da Reformas
Constitucionais de 14 de agosto de 1834 (art. II, n°5) havia dado às
Assembléias Legislativas Provinciais ampla autonomia para decidir sobre os
destinos dos índios e mais tarde, o Regimento de 24 de julho de 1845 criou a Diretoria de Indios em base à antiga estrutura do Diretório Pombalino.
A Amazônia sofreu
uma re-estruturação em sua divisão política. Em 1850, a antiga Capitania do Rio Negro foi transformada em Província do Amazonas,
separando-se do Pará e ganhando autonomia administrativa para montar o seu
próprio aparelho de Estado local; coube a este aparelho e as Assembléias
Legislativas Provinciais do Pará e do Amazonas tomar medidas para conseguir o
que o colonizador luso não havia logrado: portugalizar a região. Varios ensaios
foram tentados.
Na província do
Pará, o português Antonio
Ladislau Monteiro Baena, oficial de artilharia nascido em Lisboa com
serviços prestados na repressão à Cabanagem, já havia proposto uma
"Representação ao Concelho Geral da Província do Pará sobre a especial
necessidade de um novo Regulamento promotor da civilização dos Indios da mesma
Província" em 1831, (manuscrito pertencente a I° secção da Bibliotheca e
Archivo Público do Pará), apresentando-o como "um novo método de fomentar
a população com índios", uma vez que "a população branca não tem
força numérica" (BAENA: 1831,
pp. 248-249).
Este "novo
método" definido pelo próprio Baena como um "regime policial
compulsório" consistia em colocar "policiais em cada aldeia"
para "promover a instrução (das índios) na religião e moral", a
envolvia inclusive o sequestro de índios menores para obrigar seus pais a
trabalharem. O ensino devia ser em português:
"Os índios
meninos serão doutrinados gratuitamente na escrita e na prática das quatro operações
fundamentais da Aritmética nos princípios sentimentais da moral e nas máximas
relativas a obediência devida às Leis, e ao respeito devido ao Monarca e à toda
as Autoridades Públicas"
(Art. XVIII, BAENA: 1831, p. 264).
Na Província do Amazonas, a iniciativa privada ficava
responsável pela "еduсаção" dos índios que lograsse capturar em suas aldeias de origem; a
Diretoria de Indios, criada em 1845 e os missionários, pelos
índios vivendo em aldeias não tribais e o Estado pelos índios destribalizados e
mestiços que viviam nos povoados e falavam o Nheengatu.
Com a autonomia
dada as assembléias legislativas provinciais na terceira sessão da primeira
legislatura da História da
Província do Amazonas, isto é, no terceiro encontro que tiveram os primeiros
deputados amazoneses, foi apresentado o primeiro projeto visando a exploração
do trabalho indígena, na sessão de 9 de setembro de 1852. Este projeto recebem
o número 02 (o projeto n° 01 foi o que aprovava o Regimento interno para que a Assembléia pudesse funcionar).
A pressa - a voracidade - com
que foi apresentado indica a importância da questão.
Os tres primeiros artigos- do projeto estabelecem:
"I° Fica livre a todo morador poder ir contratar a troca dos indígenas
bravios com os principais das nações selvagens; 2° feita a troca, o indivíduo
apresentar-se-á com os indígenas perante o juiz de paz mais vizinho para
assinar um termo de educação (sic) por espaço
de dez anos; 3° concluídos os 10 anos de que trata o artigo antecedente, poderá
o índio ser aldeado" (APA: 1852-53, p. 5).
A educação devia
ser feita em português. O seu preço - dez anos de trabalho forçado - poderia
sugerir uma proliferação da iniciativa privada na difusão da língua portuguesa,
por ser altamente lucrativa. Tal não ocorreu. O recrutamento forçado continuou
independente das leis e da aprovação ou não de tal projeto, mas a menção à
educação era evidentemente uma farsa destinada a justificar o trabalho forçado
dos índios.
Com relação aos
índios aldeados, dependendo da Diretoria de Indios, existem dados precisos mostrando como a população nestas aldeias aumentou
ano após ano no Amazonas até o final da década de 1860 (FREIRE: 1979). Quanto ao ensino do português dentro das aldeias
neste período, o que se conhece é que os diretores parciais de índios, que tinham
o título de brigadeiro, atuaram da mesma forma que os diretores do período
pombalino.
Além de
trabalharem para os diretores, os índios eram requisitados periòdicamente pelo
Governo Provincial para as obras públicas em Manaus onde devem ter tido
freqüentes contatos com a língua portuguesa, na medida em que uma parte
significativa da população da capital já falava o português (APA: 1852).
Para estes índios
foram criadas algumas escolas, com o objetivo de substituir o Nheengatu pelo
português. Informações sobre o funcionamento dessas escolas podem ser
encontradas nos relatórios anuais da Diretoria de Instruçaõ Pública da
Província, quase sempre anexos aos relatórios, falas e mensagens dos
presidentes da Província (APA: 1858-1860).
Uma das fontes
mais ricas constitui o relatório do conhecido poeta brasileiro, Gonçalves Dias,
autor do poema Y-Juca Pirama e um dos pioneiros do movimento indigenista
romântico na literatura brasileira. Ele viajou em 1860 ao longo de todo o rio Solimões até a fronteira соm o Peru e
ao longo de todo o rio Negro até Cucuy, na fronteira
com a Venezuela e Colombia,
contratado pelo Governo
Provincial para fazer uma avaliação do
sistema escolar recém-implantado. Elemento estranho à região, uma das
conclusões mais importantes de Gonçalves Dias foi a de que o sistema educativo
não funcionava porque a língua empregada na escola - o português - não era a
língua falada pelas comunidades locais. O português era a língua oficial,
sendo obrigatório o seu uso na escola, mas a maioria da população desconhecia
esta língua e falava apenas o Nheengatu. Isto não impediu ima insistente
recomendação ao Governador da Província feita por G. Dias, para quem
"a vantagem
da frequência das escolas, estaria principalmente em se desabituarem da língua
geral, que fallão sempre em casa e nas ruas, e em toda parte" (APA: 1861, p. 5).'
A função da
escola não era tanto veicular conhecimentos e valores que não podiam ser
transmitidos numa língua desconhecida pela população, mais veicular a própria
língua, ainda que este não fosse o seu objetivo explicito. Nestas aldeias, nada
globais, o meio era efetivamente a mensagem, G. Dias expressa isto:
"No fallar a
língua portuguesa jã vai uma grande vantagem, e tal que, quando
mesmo os meninos não fossem a escola para outra coisa, ainda assim conviria na
actualidade e ficaria ainda sendo conveniente por bastante tempo" (APA:
1861, p. 5).
Os mesmos
preconceitos dos séculos anteriores são reavivados no que diz respeito às
línguas indígenas e ao Nheengatu. Tavares Bastos, que viajou pelo vale do
Amazonas, nesta epoca, comenta:
"Essa
população é, na maior parte, semi-bárbara. Os seus habitos, os seus costumes,
as suas indústrias, a própria lingoa (pois que em muitos povoados a lingoa
geral ou tupi é a unica conhecida) denunciam a raça dos aborígenes
ainda não transformada pelo contato com os europeus" (BASTOS: 1866, p.
157)
Faria, professor
de Nheengatu no Seminário de Belém, em 1858, preparando os futuros missionários destinados a trabalhar com os índios,
via o Nheengatu como uma "língua pobre". Segundo ele, "esta
língua é silábica como as cultas da Europa, porém é tal a sua imperfeição, que
me persuado que nunca possuiu regras que dessem a conhecer todas as suas sílabas.
A sua pobreza fez adoptar o costume de ajudarem-se dos gestos e das acções,
vendo-se obrigados a variar os acentos ou tons de suas silabas. Os seus verbos nao tem as desinências necessárias para designar todos
os tempos e os diferentes modos..." (FARIA: 1858, p. 296).
Como
consequência, todas as propostas consistiam em defender que o Nheengatu fosse
banido e o português divulgado nas escolas. Bastos iria enfatizar que esta
"raça decaída" deveria receber instrução em língua portuguesa,
"leiga, profissional, sem latim e sem retórica nem clericalismo, mas
abundante de noções práticas" (BASTOS: 1866, р. 357),
Mas o processo de
portugalização através da escola foi muito mais lento do que se desejava e
apresentou resultados muito duvidosos. Os índios e os caboclos viviam muito próximo à economia tribal, o que implicava em
funcões diversas para as crianças. Este fator, segundo G.Dias, era responsável
pelo grande absenteismo durante a maior parte do ano.
Torna-se evidente
que não seria uma escola que usa uma língua não falada pelos alunos e não
dominada pelo professor que iria "portugalizar" a região. Isto só
vão começar a ocorrer a partir da integração da Amazônia no mercado
internacional e sua inserção na divisão internacional do trabalho como
produtora de borracha para as fábricas de automóveis dos Estados Unidos e da
Europa. E mais precisamente quando começarem a entrar na região milhares de
nordestinos fugidos da sêca e da estrutura agrária do Nordeste, e que seriam
responsáveis pelo "boom"
da borracha a partir de 1877 (FERREIRA DA SILVA: 1977). Furtado presume uma
corrente de aproximadamente 260 000 imigrantes portadores da língua portuguesa
para a Amazönia de 1872 a 1900, a qual teria se elevado a pelo menos 500 000
até 1910 (FURTADO: 1959, p. 158). Com esses imigrantes, o português adquiriu
sua hegemonia na Amazônia. O caráter recente desta hegemonia - no que diz
respeito ao Estado do Amazonas tem menos de um século - e as condições históricas
em que ela se processou modificaram o quadro lingüístico e determinaram
funções diversas às diferentes línguas, com consequências sobre a situação
cultural da atual sociedade amazonense.
Cabe agora
perguntar quais foram, no plano lingüístico e cultural, os resultados de todo
este processo.
Neste artigo,
apenas chegamos a abordar muito ràpidamente alguns aspectos da evolução
histórica do quadro lingüístico da Amazônia brasileira, o que é insuficiente
para formular conclusões sobre suas consequências. Investigações mais profundas
se fazem necessárias, mas existem dificultades para
realizá-las, uma vez que inexistem pesquisadores na região, pois as tres universidades amazônicas situadas nos Estados do
Amazonas, Pará e Acre - não possuem cursos de lingüística, nem de antropologia
e até mesmo os cursos de história são de recente implantação e estão voltados
para outra problemática.
Contudo, talvez
seja possível destacar aqui, em línhas gerais, dois aspectos relacionados às funções exercidas atualmente pelas diferentes
línguas faladas hoje na Amazônia: o papel que elas desempenham como veículo de
comunicação e o lugar que ocupam como fatores de identidade étnica ou nacional
e de coesão social.
Em primeiro
lugar, a situação atual das línguas indígenas: a hegemonia do português não
impediu que a Amazônia continue sendo a região do Brasil onde existe o maior
número de línguas. Centenas de línguas desapareceram, muitos povos foram e
continuam sendo exterminados, mas outros resistiram e continuam resistindo,
ainda que em situação de línguas dominadas, discriminadas e minoritárias as
grandes famílias lingüísticas - Tupi, Aruak, Karib, Tukano, Pano, Gê -
continuaram representadas na região pelos grupos que conseguiram
sobreviver ao dilúvio inicial do Nheengatu e em seguida do português.
Segundo dados recentes,
existem 119 302 índios na Amazônia brasileira (PORANTIN, ano 1V, n° 37, abril
de 1982), pertencentes a mais de 100 grupos tribais diferentes, mas a situação
lingüística de cada grupo varia de acordo com o nível de contato, com as formas
como ele evoluiu e até mesmo com o número de falantes de cada língua.
A situação é
bastante complexa, mas grosso modo podemos localizar estes grupos em tres categorias diferentes:
1. Existem
atualmente grupos indígenas que continuam isolados e vivem fora da área de
circulação mercantil; estes grupos resistem como monolingües em língua vernacular, desconhecendo o português ou qualquer outra
língua. Eles constituem talvez o único setor da população vivendo em
território amazônico que usa a língua como instrumento de criação literária
oral e como vínculo com suas tradições. Podemos supor também que estas línguas
devem funcionar como un vínculo
seguro de auto-identificação étnica.
2. Outros grupos
integrados em diferentes graus à circulação mercantil são constituídos por
indivíduos bilíngües, também em diferentes graus e formas, e neste caso suas
línguas maternas funcionam como veículo de comunicação interna e
соmо elemento de identificação e diferenciação étnica e a
segunda língua funciona como língua de comunicação com a sociedade regional
envolvente; quando esta última fala o português - o que acontece na maioria dos
casos - a segunda língua é o português. Mas existem áreas restritas
соmо a região do Rio Negro ondo o Nheengatu continua
desempenhando o papel de "língua franca", ou a micro-região do Uaupés
(afluente do Rio Negro) onde se formou uma barreira à expansão do Nheengatu,
devido a um processo recente de Tukanização que levou muitos grupos a usarem a
língua Tukano como "língua franca" (SCHADEN: 1969, p. 198).
3. Finalmente,
existem grupos que mantém sua identidade étnica, mas não falam mais suas
línguas de origem.
Como não existem
programas educativos específicos para estas diferentes realidades lingüísticas,
a única possibilidade para os indivíduos nesta situação - no caso em que tenham
acesso à educação formal - é a escola monolíngüe, em língua portuguesa. Desta
forma, mesmo se existem exemplos isolados de grupos que tentam retomar e
valorizar suas línguas maternas, elas parecem estar condenadas à extinção se o
processo atual continua na mesma direção.
A atitude tomada
hoje pela população amazonense em relação as línguas indígenas é uma
continuação daquela dos séculos anteriores; não existe uma revisão crítica, sem
oficial nem oficiosa, sobre os preconceitos desenvolvidos anteriormente,
podendo-se constatar que não houve uma ruptura com o discurso colonialista, que
continua presente até mesmo no plano institucional e acadêmico. Batista, um
respeitado cientista da região, considera as línguas indígenas como
"esses mil dialetos monossilábicos usados pelos íncolas". E Reis,
historiador oficial, pretende que esses "incoerentes dialetos
monossilábicos" são sintáticamente pobres e por esta razão não podem
competir com o português, língua expressiva, rica e harmoniosa (BATISTA: 1976,
p. 43).
Assim, os
próprios índios recentemente destribalizados da periferia dos centros mais
urbanizados do Amazonas foram impedidos de elaborar de outra forma este
processo e a ruptura de sua identidade opera através desta ideologia que lhes
nega sequer um status de "língua" a suas línguas, as
quais eles consideram, com o conjunto da população, como "gírias".
A situação da
maioria desses grupos pode ser resumida por uma frase da última sobrevivente do
grupo Ofaié-Xavante, dona Maria Rosa, que entrevistada em 1978 no Posto Indígena de Icatu, em São Paulo,
estabeleceu um diálogo com um gravador que havia registrado suas próprias
palavras. Emocionada por ouvir sua língua que há muitos anos não escutava, ela
se despediu do gravador dizendo: "Eu agora mão falo mais, porque estou
rouca, viu" (VIANA: 1979, pp. 112-113).
Esta situação de
"rouquidão" e de "mutismo" atingiu também indivíduos que
continuam falando o Nheengatu.
O Nheengatu
continua sendo falando hoje por uma população cabocla e indígena situada entre
a cidade de Manaus e as malocas do alto Rio Negro, numa área aproximada de 300
000 km2 quе apesar de sua extensão é a única região do Brasil onde a
população diminui de um censo para o outro e que apresenta a densidade
demográfica mais baixa do país (INPA: 1978, p. 7). Apesar das escolas
salesianas aí instaladas continuarem exercendo a mesma função preconizada por
G. Dias em 1861, o Nheengatu é o instrumento de comunicação usual da população
que aí reside e a língua de comércio.
Faz-se necessário
estudar mais profundamente o processo histórico de expansão do Nheengatu na
Amazônia e suas consequências: em que medida o processo inicial e natural de
tupinização visível no baixo Amazonas nos primeiros dias da Conquista não foi
quebrado com a imposição forçada pelo sistema colonial? Em que medida esta
imposição do Nheengatu nãо foi responsável pela ausência de uma
identidade étnica por parte dos grupos que foram obrigados a usá-lo? O que se
sabe com segurança é que o Nheengatu não exerceu a função de comunicação
histórica ou de instrumento literário quer oral, quer escrito: o que dele
restou foi uma escassa literatura religiosa produzida pelos missionários.
Língua imposta
pelo sistema colonial o Nheengatu talvez possa ser responsabilizado em parte
pelo corte na memória coletiva dos povos amazônicos na medida em que esses
povos não se identificavam соm este idioma, e tiveram desta forma
sua tradição oral interrompida. No entanto, hoje, sua função é bastante
diversa: ele substituiu a fala nativa de muitos povos do Rio Negro e serve como
um fator de solidaridade entre índios e mestiços em
oposição aos habitantes dos núcleos urbanos; e os grupos indígenas na
fronteira de expansão desta área, que só nos últimos tempos começaram a entrar
em contato соm a sociedade regional, ao invés de aprender o portugués, aprenderam a Língua Geral (RIBEIRO: 1977, pp.
30-31).
Não foi apenas
sua função que mudou. Nos dois séculos anteriores, esta variеdade
amazônica passou por um processo evolutivo significativo, mas que não foi
ainda estudado. Correa
de Faria, ao editar o seu Compêndio
da língua indígena brasílica, em 1856, para ser usado nas aulas do
Seminário de Belém, tentou usar como foste uma edição de 1685 da gramática e
dicionário elaborado pelo padre Luis Figueira em 1621. Ele constatou, no
entanto, que:
"De então
para cá se tem perdido quase inteiramente os modos porque nesta época falavam o
idioma brasílico" (FARIA: 1858, p. 296).
De acordo à
Faria, o idioma que ele havia aprendido quando fora comandante militar do
Alto-Amazonas (na região do Rio Negro) a partir de 1841, era bastante diferente
do "tupi-jesuítico''.
O sistema
tradicional de comercialização que tem se mantido no Rio Negro talvez seja
responsável - entre outros fatores - pela sua conservação nesta área. No
entanto, as mudanças socio-econômicas do século XX com a vitória da circulação
mercantil deu uma relativa unidade lingüística ao conjunto da Amazônia em base
ao português.
O português,
língua dominante de comunicação regional, é falado hoje pela grande maioria da
população amazônica a força de trabalho e as demais mercadorias são compradas e
vendidas quase sempre em português. Este fato permitiu romper as barreiras de
isolamento da Amazônia, possibilitando o estabelecimento
de um veiculo de comunicação com o conjunto da comunidade brasileira
e criando um poderoso veiculo de identificação nacional. A quase totalidade da
população amazônica fala o português e se sente brasileira e este processo tem
um caráter irreversível.
No entanto, ser
membro integrante da comunidade nacional, não significa que a língua portuguesa
passou a desempenhar na Amazônia todas as funções que ela exerce em outras
áreas do Brasil. Como o processo de hegemonia do português é bastante recente e
se deu sob condições particulares de opressão e exploração socio-econômica,
esta língua històricamente teve e continua tendo funções limitadas na região.
Na medida em que
a língua portuguesa, usada na família, na escola, nos meios de comunicação, na
igreja, nos sindicatos, na rua, no trabalho, enfim na comunicação cotidiana, não foi capaz de produzir um discurso sobre a
própria realidade amazônica, as funções comunicativas da língua portuguesa na
sociedade amazonense ficaram restritas aos níveis que Heath, retomando a "Escola de Praga" denominou de comunicação corrente e
técnico-prática, sem atingir os níveis de comunicação literária ou
técnico-cientifica (HEATH:
1977, pp. 279-280) ou
ainda a função de comunicação histórica (TORERO: 1974, pp. 210-211). Isto é, o português não serviu como instrumento
para elaborar a criação coletiva ou para transmitir experiências históricas e a
vivência regional, de uma geração à outra, nem sequer mesmo esta experiência
colonial imediata e muito menos aquela milenar elaborada pelos índios.
Estas funções
literária, técnica-científica ou de comunicação histórica não consistem apenas
na criação literária ou científica, mas pressupoem a existência de um corpo -
de uma elite - de especialistas que além de produzir literatura exerce uma
certa influência normativa sobre o resto dos usuários da língua e sobre a
identificação que com ela se possa ter. Na Amazônia, històricamente, não se
criou esta elite.
Quando em pleno "boom" da borracha, começou a desenhar-se o
surgimento de um embrião destes especialistas, apareceu uma tendência acentuada
demonstrando uma incapacidade de identificação sequer com
o português emergente. O caso mais extremo e típico é o do escritor amazônico Frederico José
de Sant' Anna Nery, que nasceu em Belém do Pará em 1848,
quando o Nheengatu mantinha ainda sua hegemonia na maior parte da região. O
Barão de Sant' Anna Nery - agraciado pelo Papa Leão XIII com
este titulo com o qual ficou conhecido - abandonou literàriamente a sua língua
materna - o português - cujo processo de emergência ele havia testemunhado,
para escrever diretamente em francês, língua aprendida quando fez seus estudos
no seminário de Saint Sulpice, em Paris, onde também estudou
Letras. Filho de uma "tradicional" familia amazônica, e sobretudo
filho do "boom"
da borracha, Nery escreveu
todos os seus livros diretamente em língua francesa, cujas edições foram
financiadas pela própria Assembléia Legislativa do Amazonas. Não existe edições
em português de sua obra, quе foi traduzida ao inglês e ao italiano
(NERY: 1884, 1889, 1906).
O caso da
"elite da borracha" seria apenas pitoresco se não contribuísse para
revelar uma tragédia maior que afetou toda a população amazônica a paralização
de tida a comunicação histórica. O português não serviu
como veículo de transmissão das experiências coletivas para as sucessivas
gerações; apenas fragmentos delas conseguiram passar pelo filtro dos relatórios
burocráticos e da correspondência oficial redigida em língua portuguesa.
Os brotes
isolados que surgiram aqui e ali para elaborar uma história da Amazônia com
base nestes fragmentos não lograram transmitir as experiências vitais. O
primeiro ensaio de história da Amazônia é de autoria de Bernardo Berredo, um
"capitão de cavalos" de nacionalidade lusa que que foi Governador do
Estado do Maranhão e Grão-Pará (1718-1722). Com livre acesso aos arquivos
oficiais, o governador se transformou em historiador para fazer "a mais
exata cronologia do mundo" como ele mesmo anuncia no prefácio (BERREDO:
1749): Como uma parte dos arquivos se perderam, Berredo tornou-se uma
importante fonte para a história colonial. Uma rápida análise sobre algumas
fontes que ele utiliza e que sobreviveram - como Acuña ou Christovam Lisboa - nos permite constatar que quase todas as observações
de ordem etnográficas desses autores foram amputadas par Berrado, bem como os
trechos em que estes dois autores reproduzem o discurso indígena.
A partir de
Berredo até os dias de hoje, a história da Amazônia se resume a uma
parcializada e primaria "visão dos vencedores". O estudioso atual que
mais produziu sobre a história regional e cuja obra em seu conjunto possui um
inegável valor heurístico, Artur Reis, já era historiador quando foi nomeado governador
do Amazonas após o golpe militar de 1964 e apenas neste sentido ele fez o
caminho inverso de Berredo. Reis identifica-se a tal ponto com os colonizadores lusos quе quando a eles se refere no
século XVII ou XVIII, fala de "nossa conquista". Para ele, os
tratados do século XVIII reconheceram "a expansão que nós realizamos"
(REIS: 1956, p. 310)
Esta apologia
hiper-nacionalista já havia escandalizado ao americanista espanhol Jiménez de la Espada, quando no final do século passado observou :
"Los
portugueses han tenido la doble fortuna de no tener un padre de Las Casas y de
que los brasileiros hayan hecho suyos, sin discutirlos, los hechos de aquellos
hombres que a toda costa les dieron la opulenta y anchísima patria
quе hoy los nutre y engrandece
(JIMÉNEZ DE LA
ESPADA: 1895, p. 66).
Mais de 50% desta
patria é constituída pela Amazônia, menos lusa em
seu processo histórico que o resto do Brasil e talvez, por isto mesmo a mais
lusa de todas na reconstituição do passado histórico, funcionando como ideologia
de integração nacional:
Se falar o portugués à nível corrente e familiar foi suficiente para
que os amazonenses se sentissem parte integrante da comunidade brasileira, não
o foi para integrá-los a parte inteira. A identidade regional da sociedade amazonense
hoje está à espara de estudos sérios. Após o trabalho do norte-americano
Charles Wagley sobre a cultura do caboclo do Amazonas (WAGLEY: 1953), o etnólogo Eduardo Galvão estudou a região do Rio Negro na
década de 50, com o quadro teórico da aculturação, constatando a existência de
um processo de "formação e desenvolvimento da cultura e sociedade
caboclas"(GALVAO: 1979, p. 135).
Contudo, a
própria definição desta sociedade cabocla continua bastante ambígua, porque freqüentemente apresentada como um processo
harmonioso, quase de colaboração, entre sociedades diferentes, ignorando as
condições de opressão e exploração socio-econômica em que se deu. Aquilo que
Cardoso define, no plano teórico, como "fricção interétnica" -
processo conflitivo e contraditório - não foi ainda aplicado para explicar a
formação do "sistema interétnico" no caso particular da Amazônia
(CARDOSO DE OLIVEIRA: 1978,
p. 83).
Inexistem estudos
sobre a variante regional da língua portuguesa falada hoje na região por uma
população que é fundamentalmente mestiça com fortes rasgos indígenas ao lado
de uma recente e marcante influência nordestina. O português
sub-estandardizado falado hoje pelos caboclos descendentes dos indios das aldeias de repartição não logrou adotar as
normas culturais "modernas" e possivelmente dará uma salto da aldeia
doméstica para a "aldeia global" devido à política federal dos meios
de comunicação que está modificando esta situação e sobretudo a transmissão
massiva dos programas de televisão produzidos no sul dopais e transmitidos
via-satélite; a televisão a partir dos anos 1970 vem funcionando como agente de padronização.
Analisando o
discurso produzido sobre a Amazônia no período colonial e o discurso atual
produzido pelos amazonenses, o escritor Marcio Souza definiu a
amazonense de hoje como "um homem geralmente desfibrado e incoerente, um
farrapo, atravessado ente dois mundos contraditórios, entre o colonizador e o colonizado". À pergunta de porque
o amazonense se encontra completamente cortado de sua própria história e de sua
tradição, o escritor responde que isto se deve ao fato de que os povos
indígenas, "os únicos que haviam conquistado o status de uma cultura que falava em todos os niveis a linguagem da Amazônia"
estão em processo de extermínio e banidos da investigação. "A Amazônia
índia - conclui Souza - é um anátema, um purgatório, onde culturas inteiras se
esfacelam no silêncio e no esquecimento" (SOUZA: 1977, p. 70-71).
Um amazonense que
frequentou qualquer escola primária, que teve o privilégio de terminar a escola secundária ou até mesmo finalizar qualquer
curso universitário, pode atravessar estes tres ciclos sem nunca, em momento algum, haver discutido absolutamente
nada sobre a realidade amazônica e sobre sua própria condição indígena. A portugalização da Amazônia mão foi apenas um
processo de esmagamento das línguas indígenas; foi além disso a montagem de
toda uma ideologia colonizadora
que baniu a questão indígena do currículum
oficial das escolas, dos
meios de comunicação e da memória do povo que vive - sobrevive - hoje, na
Amazônia.
O Barão de Sant'
Anna Nery resumiu A "processo civilizatório" ocorrido na Amazônia com
a seguinte frase: "Nous avons échangé l'arc séculaire contre la carabine" (NERY: 1985, p. 148). Seguindo sua lógica e sem qüestionar aqui a carabina como
agente de civilização, podemos indagarem quе medida a atual tragédia
amazônica - da qual o barão é um exemplo típico - não reside justamente no fato
que os amazonenses não sabem mais manejar o arco secular e tão pouco
aprenderam a usar a carabina.
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