Actes : La "découverte"
des langues et des écritures d'Amérique
Maria Cândida Drumond Mendes Barros
Museu Emílio Goeldi
/ Belém, Brasil
No Brasil, o
tupi -chamado de língua brasílica nas crônicas jesuíticas- foi a língua da
conversão religiosa, no período de 1549, data de chegada dos jesuítas, até
1759, quando a Companhia de Jesus foi expulsa da colônia e teve início uma
política patrocinada pela administração colonial de oficialização do português
no contato com os grupos indígenas. No contexto deste trabalho tentar-se-á
reconstruir a política lingüística da Companhia de Jesus no Brasil no século
XVI através de três questões[1]:
1.
identificação do intérprete tupi da missão, particularmente aqueles que eram
membros da Companhia de Jesus. Com o levantamento espera-se rastrear a forma de
aquisição do tupi no interior da ordem religiosa (pela oralidade ou pela
escrita).
2.
a presença de uma tradição de discurso público exortativo (com valores de
advertência, clamor, etc.) tanto entre missionários como entre grupos tupi e a
forma de sobreposição dessas duas tradições discursivas como parte da
estratégia de conversão jesuítica.
Esses dois
tópicos estão relacionados ao termo "língua", usado nas crônicas
jesuíticas com o sentido de intérpretes tupi ou como pessoas com poder de
oratória nesta língua.
3.
conhecer os espaços de elaboração e difusão de uma escrita colonial tupi
através do enfoque do uso colonial da gramática de Joseph Anchieta. O
surgimento da escrita tupi será focalizado como indício da presença da
"Ideologia das Letras" (Mignolo,
1992) que foi um movimento intelectual do Renascimento europeu, o qual
privilegiou a escrita como forma de conhecimento. A ideologia das letras estava
ancorada na escrita alfabética, na tecnologia da imprensa e na cultura dos
livros. Tendo sido contemporânea à expansão do mundo colonial, a ideologia das
letras tomou a escrita alfabética como marca da fronteira entre barbárie e
civilização. Os povos indígenas da América, por não terem a escrita alfabética,
representariam a barbárie. No caso dos grupos indígenas que possuíam algum
sistema de escrita, como os Náhuatl e Maya, o papel colonizador no âmbito da
linguagem ocorreu através da substituição desses sistemas autóctones de escrita
pela alfabética.
Essas três
questões levarão à caracterização da política lingüística da Companhia de Jesus
pela diglosia tupi versus latim, línguas a serem caracterizadas pelos valores
de externa versus interna. A língua brasílica era utilizada pela missão para
comunicar-se com os de fora, enquanto o latim se definia como língua de domínio
interno da Companhia.
A atenção
recairá particularmente no século XVI, nos primeiros 50 anos dos jesuítas na
colônia. A principal fonte de documentação será a obra de Serafim Leite sobre a
história da Companhia de Jesus no Brasil.
Antes da chegada
dos missionários e da administração colonial, a função de intérprete já existia
nas situações de chegada de navios para abastecer ou comercializar (Cortesão, 1955). Em geral, esta função
era exercida pelos colonos europeus espalhados pela costa. O aprendizado da
língua indígena por eles era essencialmente oral, fruto da convivência por
laços de parentesco e compadrio com os grupos indígenas da costa. Não há menção
ao aparecimento de uma escrita tupi neste período. São Vicente é um caso
exemplar de núcleo de colonos formado graças às relações de alianças com os
grupos indígenas da região e com predomínio do uso do tupi como língua de
contato (Cardim, 1939:171). Para
esses europeus estabelecidos na costa, o tupi funcionava como língua de
comunicação interna, ao ser empregada para falar com familiares e aliados.
A função do tupi
para a Companhia de Jesus foi de língua de comunicação externa, ao ser usada
para falar com os índios. A própria existência de intérpretes no interior da
Companhia de Jesus indicaria as limitações do domínio do tupi entre os seus
membros. Nem todos os membros a sabem; os "padres do reino" (aqueles
que chegavam já ordenados), por exemplo, costumavam receber dispensa de saber a
língua brasílica (Leite,
1950:v.II:564). Dos oito provinciais que a Companhia de Jesus teve no
Brasil no século XVI, apenas um (Anchieta) é reconhecido como tendo
conhecimento do tupi.
As crônicas
mencionam o uso de índios "mamaluquos" (filhos de colonos com índias)
e colonos europeus exercendo o papel de intérpretes para a Companhia. O emprego
de mulheres e crianças indígenas nessa função, em particular nas situações de
confissão, foi um tema polêmico no interior da Igreja. Manuel da Nóbrega,
primeiro provincial dos jesuítas no Brasil, e o bispo Pedro Fernandes
mantiveram em 1552 um debate em relação ao tema. O bispo questionava o seu uso
(Leite, 1956:361-363), enquanto
Nóbrega argumentava que não havia inconvenientes por serem eles "feitos a
nossa mão" (Leite,
1956:370).
Apesar do uso de
intérpretes externos à ordem religiosa, o empenho da Companhia foi formar seu
próprio quadro de "línguas", vinculados à Missão por laços de
obediência. Apenas nos primeiros anos, os jesuítas compartilharam intérpretes
com a administração; posteriormente, a Companhia ganhou uma posição
privilegiada frente à segunda, ao estabelecer seu próprio corpo de
"línguas" e chegando mesmo à posição de emprestá-los para a
administração. No período de 50 anos, é possível alistar cerca de 60 nomes de
jesuítas identificados como tendo algum domínio do tupi[2]. Deles, 43 entraram na Companhia de
Jesus na colônia; sua procedência foram colonos, filhos de portugueses
crescidos no Brasil e órfãos portugueses. Jesuítas "línguas" que
chegaram já ordenados foram em menor número. A diferenciação entre jesuítas
"nascidos na terra" e os do "reino" esteve ligada a ter ou
não domínio do tupi[3].
A forma de
atuação dos irmãos "línguas" -que não tinham prerrogativas para
oficializar sacramentos- era acompanhando os "padres do Reino" (1551/Leite, 1956:226). Quanto maior o posto
-o de provincial, por exemplo- maior o número de intérpretes acompanhando-os.
Nóbrega e Luis Grã, por exemplo, são mencionados em algumas ocasiões viajando
pelas casas jesuíticas acompanhados por vários "irmãos línguas".
Nos primeiros
anos, o recrutamento de membros para os quadros jesuíticos esteve determinado
pelo domínio da língua brasílica. Nóbrega, provincial até 1559, formou seu
quadro de "línguas" basicamente através dos colonos e meninos órfãos
enviados da Europa[4]. Os meninos órfãos ("os irmãos
menores") chegavam na colônia em média com 14 anos. No fim do período de noviciado, não entravam nas
classes de gramática ou de humanidades (como ocorreria na Metrópole) sem antes
passarem um tempo nas aldeias (Leite,
1950:v.II:563). Outra forma de expor os "irmãos menores à língua da
terra" era pela proximidade das escolas para crianças indígenas à dos
adolescentes portugueses. Estes eram os momentos de aprendizado da língua
brasílica.
Outro importante
contingente de "línguas" foi o de colonos e meninos portugueses
crescidos no Brasil. A importância dos colonos e seus filhos enquanto
potenciais membros da ordem é possível verificar pela preferência de se ter São
Vicente como a principal base dos jesuítas. Em 1550 Nóbrega
decidiu instalar ali a primeira casa do grupo e não em Salvador, sede do
governo na colônia. A boa relação dos colonos com os índios e o domínio que
tinham das duas línguas seriam os motivos principais para a instalação em São
Vicente (1553/Leite, 1957:15, 76)[5].
A importância
que havia no fato de ser "língua" pode ser observada na Colônia pelo
grande número de solicitações de dispensa das exigências institucionais para
receber os votos. Os pedidos de dispensa apontam para o fato de que aquelas
pessoas não correspondiam ao perfil requerido na Metrópole, mas ainda assim se
pleiteava sua entrada ou promoção na Ordem, muitas vezes pelo motivo de domínio
da "língua da terra". Por exemplo, em relação a Pero Correia,
se pedia dispensa da pena de morte de índios, fato ocorrido antes de ter
entrado na Companhia de Jesus; para Fernão Luis, dispensa de votos por já ser
padre secular; para Adão Gonçalvez, dispensa da exigência de nunca ter sido
casado, etc. Em 1568, a Congregação solicitava a dispensa de maiores estudos a
todas as pessoas que soubessem a língua da terra (Leite, 1950:v.II:563).
Um dos casos de
dispensa foi o de saber latim, monopólio dos jesuítas em Portugal. Enquanto nos
colégios da Metrópole, era obrigatório o seu conhecimento, na Colônia, pelo
fato de alguém dominar a língua brasílica ("que es la más principal
scientia para acá más necessária" (Nóbrega,
1561/ Leite, 1958:363)), podia
ser dispensado do conhecimento do latim. O interesse pela língua brasílica
versus a não importância dada ao latim no período de Nóbrega pode ser apreciado
nas menções de que alguns irmãos línguas tinham suas aulas de latim (gramática)
suspensas para irem para as aldeias. Como motivo para dar uma formação
diferente nos Colégios da Colônia, os jesuítas alegavam a ausência de escrita
entre os índios no Brasil[6].
Ser "língua
ou não-"língua" se sobrepôs a não ser "letrado" ou sê-lo[7], com repercussões na possibilidade de
assumir cargos dirigentes no interior da ordem religiosa. Ao longo do século
XVI, houve uma oscilação quanto a política de recrutar os "nascidos na
terra". Os casos de defesa de recrutamento dessa parcela da populaçao eram
sempre baseados no domínio do tupi que possuíam.
As crônicas dos
jesuítas no Brasil relatam situações de conflitos no plano discursivo, que
tiveram seu desenlace intermediado por discursos em tupi feitos pelos
"línguas". Alguns relatos contam de índios que, pela oratória,
fizeram mudar a posição de todo um grupo, contra ou a favor dos jesuítas[8]. Outras vezes, são situações de perigo
de vida que foram resolvidas pela eloqüência do intérprete, como relata Navarro
em 1551 (Leite, 1956:278).
O discurso
público, com o objetivo de clamar, advertir etc. era um elemento cultural comum
tanto aos grupos tupi como aos jesuítas. Os grupos tupi são mencionados como
apreciadores dos discursos públicos, pela importância que davam aos
"senhores da fala"[9]. Também os jesuítas, através das
pregações, cultuavam o mesmo gosto pela oratória. A presença da oratória entre
os jesuítas pode ser encontrada no "exercício dos tons", que
consistia na preparação de pregadores em três fases (Leite, 1950:v.II:300). Quanto à oratória tupi, institui-se no
Colégio da Bahia o hábito de que em sessões solenes, como em visitas de
prelados, houvesse demonstrações de pregações de "orações em prosa e em
verso na língua do Brasil" (Leite,
1950:v.II:562).
Assim como os
índios tinham aqueles que eram
reconhecidos pelo domínio da oratória, os jesuítas também o tiveram. Alguns
"línguas" missionários foram reconhecidos como "pregadores"
na língua indígena, pelo domínio da oratória em tupi. As crônicas costumam
compará-los a um Cícero, "trombetas" na língua indígena (Leite, 1950:v.II:548).
Uma diferença da
oratória dos índios em relação àquela cultivada entre os jesuítas é que nesse
segundo grupo ela mantém relação com a escrita. Pero Correia pedia em 1553
livros "em romance", porque ele sabia a "língua da
terra", mas "se um pregador não tem coisas novas enfastia" (Correia, 1553 apud Leite, 1937).
A estratégia de
conversão por parte dos jesuítas de São Vicente foi a de substituir a oratória
do "senhor de fala" pela da pregação cristã, realizando esta
nos momentos tradicionalmente destinados àquela, ou seja, nas primeiras horas
do dia[10]. A ocupação missionária do espaço e
tempo da oratória do "senhor da fala" pode ser considerada como uma
forma de colonização da linguagem, definida por Mignolo como sendo a situação
na qual a voz de uma comunidade é suprimida e desacreditada por outra
modalidade discursiva (Mignolo,
1992:310).
Nos primeiros
anos da conversão, a sobreposição das duas tradições de oratórias está presente
na prática de usar as "pausas", "quebras" e gestualidade do
discurso indígena por parte dos jesuítas[11]. Em 1574, é mencionado um abandono desta
linha discursiva, ao se procurar diferenciar a pregação cristã da oratória
indígena[12].
Uma constante da
história colonial das línguas indígenas utilizadas na conversão religiosa foi a
de terem recebido algum tipo de escrita alfabética. Sobre elas, uma trilogia de
obras foi elaborada: catecismos, vocabulários e gramáticas. Desses
três gêneros, o primeiro a ser elaborado em tupi foi o catecismo. Este tipo de
obra era complementado com as falas próprias para cada cerimonial cristão
(batizar, casar, ungir, enterrar, confessar, declarar e admoestar)[13].
Textos como esses foram escritos logo no primeiro ano da chegada dos jesuítas
por ordem do provincial Nóbrega. Dois padres do Reino foram encarregados de
escrevê-los com o auxílio dos colonos, em especial um que era alfabetizado (Pires, 1551 apud Leite, 1956:252)(Navarro, 1551 apud Cortezao, 1955). Navarro incumbiu a
esse colono de traduzir sermões, um texto para ser usado na confissão e orações
(Leite, 1958:546).
Em relação aos vocabulários, Leite avalia que foram
obras elaboradas por iniciativa e uso individual até 1565. Neste ano, foi
solicitado pela metrópole um vocabulário para que os jesuítas europeus, a
caminho da colônia, pudessem usar como forma de aprendizado.
Quanto a
gramática, a primeira foi a de Anchieta, escrita entre 1555-56 em São Vicente e
publicada em 1595. Uma outra, tupi, foi
escrita no século XVII por Luis Figueira, quando o foco da ação jesuítica
passou a ser as colônias mais ao norte (Maranhão e Grão Pará). Anchieta, ainda,
colaborou com Manuel Viegas na elaboração de uma arte na língua
Marominin.
Para ler um
catecismo tupi, requeria ser alfabetizado em português, já que essa ortografia
serviu de base para a escrita tupi. Para usar um vocabulário, exigia, além de
ser alfabetizado, conhecer as regras de uso desse gênero de obra (consulta ao
significado de palavras isoladas ordenadas alfabeticamente). No
caso da gramática tupi, era requerido
um conhecimento extra, o de saber noções da gramática latina. Saber
falar tupi não tornava uma pessoa capaz de compreender uma gramática nesta
mesma língua.
A história da gramática tupi se constrói paralela ao
ensino de latim. A idéia de fazer uma Arte tupi já é mencionada por
Navarro em 1553 (Leite,
1950:v.II:549), porém seu primeiro autor acabou sendo Anchieta, professor de
latim em São Vicente. Ele menciona estar trabalhando na Arte em 1555,
mas não encontrava ali pessoas que soubessem gramática[14], que
pudessem fazer uso da obra, apenas os que chegassem da Metrópole com
conhecimento de latim. Um ano mais tarde, Nóbrega levou uma cópia da Arte
para Bahia, e quem parece disposto a aprender a língua brasílica por meio dela
é o professor de Latim do Colégio da Bahia, Antonio Blazques (1556 apud Leite, 1957:301).
A primeira
gramática tupi (1555) foi contemporânea à primeira gramática do português (1536).
A proliferação de gramáticas no século XVI foi um sinal da ideologia das
letras, que tornou o latim modelo universal. Essa universalização surge pela
elaboração de escritas alfabéticas e pelo uso de categorias gramaticais latinas
como molde para as línguas coloniais (Mignolo,
1992:305). As gramáticas do século XVI não tiveram a função especulativa que
possuíam na tradição grega e se tornaram instrumentos de aprendizado de
línguas. Embora as gramáticas em línguas européias tenham sido propostas como meio
de difusão daquelas línguas nas colônias, a obra gramatical acabou sendo aí
utilizada apenas como forma de ensino
das línguas indígenas usadas na conversão (as "línguas gerais").
No Brasil, os
principais autores da escrita tupi foram os "línguas" jesuítas; a
administração colonial não se interessou por uma escrita tupi. Quanto aos
colonos, apesar de ter sido um deles o primeiro a produzir textos escritos em
tupi, isto ocorreu sempre por solicitação dos jesuítas. Um indício de que não
havia muitos letrados entre os colonos conhecedores da língua brasílica foi a
ida de Navarro a Porto Seguro atrás do único colono alfabetizado.
Quanto aos
usuários dessa escrita, não se dirigia aos índios; seu fim era apenas para uso
interno da missão, haja visto que as classes de "ler e escrever" para
crianças indígenas eram em português (Leite,
1958:65*) e que a forma discursiva usada na conversão foi essencialmente oral.
Isso representava enfatizar a memória ("saber de cor")(Leite, 1957:352) como forma de difusão
dos textos religiosos entre os catecúmenos, além de usar textos na forma de
diálogo de perguntas e respostas[15] (Leite,
1957:137), para que, com "maior facilidade lhes ficasse na cabeça" (Leite, 1950:v.II: 556-557).
As obras
escritas em tupi se dirigiam essencialmente aos "padres do reino". A
gramática era a estratégia de aprendizado da língua para os membros vindos da
metrópole com uma forte formação literária (Figueira,
1878).
Através da
observação de publicações em línguas indígenas, percebe-se que a ideologia das
letras foi forte no mundo colonial espanhol
e branda nas colônias portuguesas por causa da proibição de haver
imprensa nos domínios portugueses. Nos primeiros 50 anos da presença dos
jesuítas no Brasil, à exceção da impressão da gramática de Anchieta nada mais
foi publicado, apesar de haver solicitações nesse sentido por parte dos
missionários. O primeiro catecismo tupi impresso ocorreu em 1618, depois de
cerca de meio século do exercício de escrever textos cristãos em tupi. No
período em exame, século XVI, a escrita tupi existiu apenas na forma de manuscrito, tendo sido o século
XVII mais pródigo de publicação de materiais tupi. O maior número de impressão
ocorreu na época em que o trono português esteve nas mãos dos reis espanhóis
(1580-1640).
Uma repercussão
da ideologia das letras na forma de aprendizado do tupi pelos jesuítas pode ser
encontrada no momento em que a gramática se torna central como instrumento
pedagógico. O jesuíta Antonio Pires mostra, por exemplo, uma outra estratégia
para aprender a língua, dessa vez a partir de noções da gramática latina[16]. A gramática continua presente mesmo
quando os jesuítas são enviados para as aldeias para aprenderem oralmente a língua;
em 1610, por exemplo, havia determinações para o estudo do tupi pela arte
nas aldeias, pelo menos meia hora por dia (Leite,
1950:v.II:562).
A gramática de
Anchieta deu ensejo à institucionalização do tupi como matéria de ensino nos
colégios (Leite, 1950:v.II:561).
Esse fato pode ser observado nas cartas de jesuítas da Bahia, as quais falam
sobre a ordem do provincial Luis Grã de
que todos estudassem tupi pela gramática de Anchieta. (Melo, 1560 apud Leite
1958:283; Pereira, 1560 apud
Leite, 1958:306; Pires 1560 apud Leite, 1958:310). Mais tarde, o
Visitador Inácio de Azevedo, quando tornou obrigatório o aprendizado do tupi,
determinou que aqueles que soubessem latim, deveriam exercitar-se pela Arte
da Língua (Leite,
1950:v.II:561).
Outro indício do
fortalecimento da ideologia das letras na colônia surge através da idéia de que
dominar uma gramática tupi é uma forma de saber a língua. Este é o caso de Luis
Grã, que consta nas crônicas jesuíticas como um não "língua", ao usar
intérpretes nas suas viagens e ao realizar os sacramentos em tupi por meio de
falas decoradas. Entretanto, em 1560, ele é identificado como conhecendo tupi
pelo fato de dominar a sua gramática [17].
As questões
sobre a procedência dos intérpretes jesuítas e do uso da gramática tupi na
Companhia de Jesus levam a propor uma diferença na forma de conhecimento do
tupi nos dois primeiros colégios dos jesuítas no Brasil, São Vicente e
Salvador. O período em que os jesuítas se concentraram em São Vicente, o tupi
adquirido pela missão é predominantemente de domínio oral, enquanto na Bahia se
institucionaliza seu uso escrito, surgindo ali maiores reflexos da ideologia
das letras, pelo papel relevante que teve a gramática de Anchieta.
O colégio de São
Vicente representou o momento do domínio do tupi pela oralidade, cujo interesse
era criar "senhores da fala" cristãos. Ali, o conhecimento do tupi se
deu pelo recrutamento de colonos "línguas" para os quadros da ordem
religiosa ou pela exposição dos órfãos a situações de uso oral do tupi.
O Colégio da
Bahia parece ter tido uma formação diferente à de São Vicente, diante do fato
possível do tupi não ser a língua franca na cidade, sede administrativa da
colônia. Foi lá que se institucionalizaram
aulas de tupi em 1572, transformando o colégio em local de aprendizado
da língua. Ali, a língua brasílica se incorporou ao programa escolar, teve um
professor para essas funções e a gramática se tornou seu modelo de ensino,
tanto para os padres da metrópole como para os próprios línguas.
O uso
obrigatório da gramática tupi no Colégio da Bahia, em vez de apontar um maior
realce daquela língua na vida interna da Ordem, mostra, na verdade, uma maior
importância da gramática latina na formação dos jesuítas. A obrigação de
aprender tupi pela gramática revela mais a institucionalização do latim do que
da língua brasílica.
Em suma, a
oposição entre a oralidade tupi, representada pelos intérpretes, e a escrita
tupi, por parte da gramática, nos leva a uma interpretação sobre o
funcionamento da diglosia tupi versus latim. Num primeiro momento, houve uma
maior importância no interior da Ordem do conhecimento da língua indígena, o
que fez com que a missão abrisse mão do conhecimento de latim para receber no
seu quadro aqueles que dominavam apenas o tupi, chamado do "latim da
terra"(Leite, 1957:418). Com
o aparecimento da gramática tupi, se requeria saber latim para ser capaz de
usá-la.
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[1] Agradeço a leitura e comentários de Adélia Rodrigues, Bartolomé Meliá, José Horta Nunes e Maria Carlota Rosa e Paulo Melo e Alexandre Gerhardt pela elaboração da tabela.
[2] Ver quadro em anexo. A lista inclui todo jesuíta mencionado como língua ou como tendo algum conhecimento do tupi.
[3] "se não fôssem eles [os sujeitos nascidos no Brasil], mal se poderia conseguir o fim que cá se pretende; porque como a língua brasílica lhes é a eles quási natural, tem muita graça e eficácia e autoridade com os Indios para fazer-lhes práticas das coisas da fé e lhes persuadem tudo o que é mister para tê-los quietos e contentes [....] e os que vem de Portugal, ainda que aprendam a língua, nunca chegam a mais que a entendê-la e poder falar alguma coisa, pouca, para ouvir confissões, nem acabam tanto com os Indios como os outros, que sabem seus modos e maneira de falar, e embora estes Portugueses, naturais de cá, nao sejam tanto para reger Colégios, especialmente em cargos de reitores e provinciais, não tenho por coisa de menos pêso e importância isto de atender à conversão e doutrina dos Indios, como eles fazem de contínuo e com muita edificação" (Leite, 1950:v.II:432-433).
[4] "De allá (Europa) nos embien quantos estudiantes moços pudieren para acá estudiar en nuestros collegios, porque en estos no ay tanto peligro, y estos juntamente van deprendiendo la lengua de la tierra, que es la más principal scientia para acá más necessaria y la experiencia a mostrado ser este util medio, porque algunos de los huérfanos que de Portugal embiaron, que despues acá admittimos a la Compañia, son ahora muy útiles operarios" (Nóbrega, 1561 apud Leite, 1958:363).
[5] "Polla qual razão nos obriga Nosso Senhor a mais presto lhe socorrermos, maiormente que nesta Capitania [São Vicente] nos proveo de instrumentos para isso, que são alguns Irmaos lingoas, e por estas razões nesta Capitania nos ocupamos mais que nas outras" (Nóbrega 1553 apud Leite 1957:16).
[6] "as letras em toda parte são muito necessárias e mais numas partes que noutras. No Japao são muito necessárias, porque é gente de melhor saber e subtil engenho... Mas para cá, para esta gente do Brasil, poucas letras bastam. E quem nesta terra sabe a língua dela é aqui teólogo" (Viegas, 1585 apud Leite, 1950,v.IX:385).
[7] "... porque saiba V.P. que muitos a queiram aprender [a língua da terra] e saber e dar-se a ela: tudo era darem-se às letras e serem pregadores dos portugueses, e subir ao púlpito a pregar aos brancos e nao se lembravam desta pobre gente de lhes pregar em sua língua" (Viegas, 1585 apud Leite, 1950:v.IX:384-385).
[8] "Un poco antes de la mañana en que lo avían de matar, um indio de Piratininga christiano muy estimado entre todos hizo una habla al derredor de las casas (como es su costumbre) amonestando a los suyos que dexassen a los Hermanos hazer con el enemigo todo lo que juzgassen serle necesario para su ánima" (Leite, 1958:261).
[9] "Hazen mucho caso entre si, como los Romanos, de buenos lenguas y les llaman señores de falla, y un buen lengua acaba con ellos quanto quieren, (y les hacen en las guerras que maten y no matan, y que vayan a una parte a otra, y es señor de la vida y muerte) y les oyen toda una noche y a veces tambien al dia sin dormir ni comer, y para le experimentar si es buen lengua y eloquente, se ponen mucho con el, toda una noche, para le vencer y cansar, y si no la hazen, le tienen por gran hombre (y lengua). Por esto hay predicadores entre ellos muy estimados que los exortan a guerrear, matar hombres y hazer otras hazañas desta suerte" (Mauro, 1961:163).
"Havia nesta 'poblazón' um principal mui antigo y a quem os da Ilha tem grande credito, porque lhe chamam senhor das falas" (Leite, 1957:408)
[10] "Por todos os lugares e povoações que passavamos me mandava pregar-lhes nas madrugadas, duas horas ou mais; e era na madrugada porque então era costume de pregarem os seus principais e Pagés, a que eles muito creem" (Pero Correa, 1551 apud Leite, 1956:220). "Y dos horas dante mañana los tornamos a llamar, porque en aquel tiempo están más quietos que en outro, y entonces les predicamos por sua lengua las cosas de su salvación, y ansí deciéndoles en qué han de creer; y todos están mui promptos" (Vicente Rodrigues, 1552 apud Leite, 1956:411).
[11] [Navarro] "começava a despejar a torrente da sua eloquência, levantando a voz, e pregando-lhes os mistérios da fé, andando em roda deles, batendo o pé, espalmando as mãos, fazendo as mesmas pausas, quebras e espantos costumados entre seus pregadores, para mais os agradar e persuadir" (Vasconcelos, apud Leite, 1950:v.II:299)
[12] "[introduzir nas aldeias dos indíos] a maneira de pregar que se usa entre os brancos, para que, em tudo, vão se perdendo os costumes dos seus antepassados e afeiçoando-se aos nossos" (1574 em Leite, 1950:v.II:300).
[13] "... acrescentei, não só todas as exortações necessárias nos passos ocurrentes & hum copioso confessionário: mas tambem lhe ajuntei tudo o que pertence à ordem de Baptizar, casar, & ungir, & enterrar conforme ao Ceremonial Romano; com suas declarações & amoestações na lingua, tudo muito importante para os que se ocupo na conversão" (Leite, 1950:v.II:560).
[14] "Não a ponho em arte porque não haa quá a quem aproveite, somente aproveito-me eu della, e aproveitar-se-ão os que de lá vierem, que souberem grammatica" (Anchieta, 1555 apud Leite, 1957:160-161).
[15] "os mais delles [moços indígenas da Escola] sabem a doutrina todo e sabem o esencial da fee, que em preguntas à maneira de dialogo lhes ensinão na sua lingoa" (1556 em Leite, 1957:269).
[16] "Agora começo polos nominativos por a arte para poder aprender" (Antonio Pires, 1560 apud Leite, 1958:310-311).
[17] "(Ele) é mestre della por saber explicar suas regras melhor do que todos, postos que sejão muito boas línguas" (Peixoto, 1931).