Actes : La "découverte"
des langues et des écritures d'Amérique
Maria Carlota Rosa
Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Brasil
Esta comunicação
tem como ponto de partida um comentário de Câmara Jr (1965: 101) acerca das
descrições lingüísticas feitas por missionários. Para o lingüista brasileiro,
o objetivo central dos
missionários era a comunicação com os nativos, para fim de propaganda
religiosa. [....] Era preciso conhecer a língua para por meio
dela entrar em contacto com o indígena e promover a catequese religiosa. Ora, este é justamente o espírito que
favorece a criação das chamadas línguas francas. [...] Por isso o TUPI que as
primeiras exposições dos europeus nos fornecem, não é exatamente aquele que os
indígenas exatamente falavam: é uma sistematização simplificada, feita para se
proceder à propaganda religiosa dentro
do ambiente indígena.
Discutimos aqui
essa afirmação, tomando por base dados das duas primeiras gramáticas de línguas
indígenas brasileiras que chegaram até nós, aos quais juntamos informações
acerca do contexto histórico em que foram produzidos. Essas gramáticas são: a Arte
da grammatica da lingua mais usada na costa do Brasil, do Pe. José de
Anchieta, impressa em 1595, mas que já circulava como manuscrito em 1556; e a Arte
da lingua brasílica, do Pe. Luís Figueira, cuja primeira impressão data
possivelmente de 1622.
Embora ambas as
obras tenham descrito a língua geral (LG) -isto é, a língua nativa das
tribos da costa e "de uma grande corda do sertão" (Cardim, 1584:49) e, por esse motivo, a
escolhida pelos portugueses como a língua principal- e o tenham feito
aparentemente com os mesmos dados e quase que com os mesmos exemplos,
procuramos fornecer evidências de que a gramática de Anchieta exibe uma riqueza
de detalhes -não mais presentes em Figueira- que levanta a hipótese de que ela
não se submeteu ao quadro descrito por Câmara Jr.
A situação
lingüística no Brasil que emerge da documentação que se segue ao Descobrimento
(e estamos restritos aqui até os primeiros anos do século XVII) evoca um
contexto lingüístico muito diversificado, com diferentes graus de
comunicabilidade entre os vários grupos que habitavam o território.
Num dos extremos
de uma hipotética escala de comunicabilidade estariam os falantes monolíngües,
quer de português, quer de LG, quer de outras línguas, brasileiras ou não[2]. Em especial os relatos dos primeiros
viajantes que passaram pelo Brasil dão conta da dificuldade dos europeus com as
línguas nativas. O próprio descobridor, Pedro Álvares Cabral, em acordo com os
capitães de sua armada, decide-se por não seguir a ordem do rei de Portugal,
que era levar dois nativos das terras que viessem a ser descobertas e em que se
falassem línguas desconhecidas, para, depois de "aprenderem a falar",
poderem ser inquiridos sobre o que nelas havia (Fernandes ca., 1507-10: 239-40 [fol.349]). Ao
contrário, em vista de os nativos serem "jente que ninguem emtende nem
eles tam cedo aprderiam a falar pera o saber tam bem dizer" (Caminha, 1500:26), Cabral deixava na
terra por ele recém-descoberta dois degredados para que aprendessem a língua.
No outro extremo
da escala de comunicabilidade estariam os falantes bilíngües. Em meados do
século XVI, a existência de bilíngües nativos já é noticiada por viajantes como
Staden (1557:55), por exemplo. Mas, se os adultos europeus tinham dificuldades
com o aprendizado de uma segunda língua, o mesmo não se dava com as crianças.
Assim, a par com degredados, começam a ser enviadas crianças ao Brasil. Foi,
por exemplo, com muitos órfãos portugueses que o Pe. Leonardo Nunes fundou uma
escola em S. Vicente (Almeida, 1910-28:
II, 260). Por sua vez, em carta ao Pe. Miguel Torres, Pe. Nóbrega queixava-se
da grande quantidade de órfãos vindos da casa de Lisboa (In Leite, ed. 1954: II,280-1). A prática de
enviar crianças que se tornariam línguas não se restringiu aos
portugueses: La Roseé, uma das três embarcações da viagem relatada pelo missionário
calvinista Jean de Léry contava entre seus passageiros "six jeunes garçons
que nous menâmes pour apprendre le langage des sauvages"(Mayeux, ed. 1957:27).
Entre o
monolingüismo e o bilingüismo estariam níveis variados de interlíngua,
considerando-se como língua-alvo a LG, os quais iriam de formas rudimentares de
comunicação até o domínio talvez próximo ao de um nativo.
Nos níveis mais
rudimentares estaria um jargão, constituído de um pequeno conjunto de palavras
e de fórmulas, acompanhadas de instruções acerca de como agir com propriedade
junto aos índios, em uso por marinheiros e mercadores que faziam a rota do
Brasil em busca de bens que encontravam bom preço de mercado na Europa. Os
membros da tripulação da nau em que viajava Léry e que serviam de línguas, por
ex., eram pouco fluentes em "selvagem": afinal, podiam apenas,
segundo Léry (1580:I,74), "un peu gergonner" a língua dos nativos. A
"simplicidade" na expressão nesses contactos também não passou
desapercebida a um outro religioso, Yves d'Evreux (1615:220), que a relacionava
à Lei de Deus e à simplicidade cristã.
Aqueles que, ao
contrário, no Brasil se estabeleciam, aprendiam rapidamente a falar, embora não
tão bem como seus filhos. É o que afirma Fernão Cardim: "dos Portuguezes,
quasi todos os que vêm do Reino e estão cá de assento e comunicação com os
Indios a sabem em breve tempo, e os filhos dos Portuguezes cá nascidos a sabem
melhor que os Portuguezes, assim homens como mulheres" (Cardim, 1584:49). Esse aprendizado
breve da LG de que nos fala Cardim, não tão bom quanto aquele levado a cabo
por crianças já nativas, possivelmente se terá constituído, em parte dos casos,
no aprendizado de uma versão pidgnizada da LG, em que traços gramaticais que
não encontravam paralelo em português teriam sido abandonados.
Os registros da
LG feitos pelos jesuítas Anchieta e Figueira são representações da LG enquanto
segunda língua. A questão que nos pomos é a de saber que dados lhes teriam
servido de base: em vista das diferentes competências, descreveram gramática de
qual grupo?
A Companhia de
Jesus enfatizou, desde sua fundação[3], as atividades pedagógicas. As Constituições,
parte IV, escritas pelo próprio Sto. Inácio e em vigor desde 1552, assim
recomendavam: "Studeant ad id munus obeundum linguam populo vernaculam
bene addiscere ['A fim de bem cumprir essa missão, que se esforcem para
aprender a língua vernácula com o
povo.']"(apud Franca,
1952: 51n). As Regras Comuns voltavam à mesma tecla: "Singuli addiscant
ejus regionis linguam in qua resident, nisi forte ipsorum nativa illic esset
utilior ['Aprenda cada um a língua daquela região em que reside, a não
ser que a nativa fosse aí mais útil']"(apud Franca, 1952:51n). Conseqüência prática
destes postulados foi o desenvolvimento de uma importante obra gramatical,
voltada: (a) por um lado, na educação liberal, para a eloquentia perfecta,
i.e., para o domínio da expressão convincente e fluente em latim (Mathúna, 1981); e (b) para as línguas
européias mas, logo a seguir, para línguas desconhecidas que os Descobrimentos
revelavam, com a finalidade de atender àqueles que estavam fora do regime
escolar normal e que precisavam de um aprendizado rápido por razões práticas,
como era o caso dos missionários.
Cabe notar que,
como meio para levar a cabo a evangelização, o aprendizado da língua das
populações a converter não era, necessariamente, a única solução. Os Jesuítas
poderiam, hipoteticamente ao menos, ter optado por qualquer de dois outros
caminhos. Um deles seria a utilização de línguas não pertencentes à
Companhia como mediadores da pregação. Embora haja referências a eles nos
primeiros relatos dos religiosos[4], em especial a crianças órfãs ou judias
enviadas pela Coroa para esse fim (Leite,
ed. 1954), não foi esta a solução definitiva[5]. A segunda
possibilidade seria a pregação na própria língua do missionário, ou mesmo em
latim. Esta solução foi efetivamente utilizada por algumas Ordens. Os
Franciscanos, por exemplo, primeiros religiosos a chegar ao Brasil, leram em
português o Evangelho para os índios, porque, segundo eles, era a palavra de
Deus e, como tal, tinha a virtude de agir sobre os indivíduos[6]. Esta
não foi a solução jesuítica, embora, por vezes, em decorrência de
desentendimentos entre os primeiros Jesuítas chegados ao Brasil e as línguas,
tal possa ter acontecido[7].
Ponho, portanto, a hipótese de que a atitude dos
primeiros missionários jesuítas (entre os quais se contava Anchieta, mas não
Figueira) em relação à língua das populações nativas diferia da de outros
estrangeiros vindos para o Brasil na medida em que: (a) esses primeiros padres
estavam familiarizados com o estudo gramatical e procuravam reduzir a LG à
escrita, para nela penetrar; (b) seus informantes foram principalmente crianças
(Almeida, 1910-28:II,260), o que
lhes permitiu evitar alguma espécie de foreigner talk que pudesse ser
utilizado pela comunidade adulta[8]; (c)
nas missões, ainda distantes das vilas (Anchieta,
1554-1594:51), os jesuítas habitavam principalmente entre índios, não entre
mamelucos ou europeus. Esses índios, por sua vez, pouco contacto tinham com
outros brancos, uma vez que apenas uma pequena parcela dos homens prestava
mensalmente serviços em fazendas de portugueses (Anchieta, 1554-94: 51).
3.1. Ao
contrário da facilidade no aprendizado, que Cardim apontara para outros
europeus, Anchieta (In Leite, ed.
1954: I,165) ainda escrevia, dois anos após sua chegada ao Brasil, que quanto
"à língua, eu estou nela algum tanto adiante, ainda que é muito pouco para
o que soubra se me não ocuparam em ensinar gramática, todavia tenho toda a
maneira dela por arte, e para mim tenho entendido quase todo o modo dela".
No ano seguinte, em 1556, o Ir. Antônio Blazquez comentava,
numa carta endereçada aos padres de S. Roque, em Lisboa (In Leite, 1954: I,301), o esforço de seus
companheiros em aprender a LG. Nessa época já a gramática do Pe. Anchieta circulava em forma manuscrita:
"Los niños y Hermanos de casa andam todos con gran fervor de saber la
lengua, y peréceme que presto la sabrán, assi por el desejo con que a elle se
aplican, como porque para aprenderla tienen una Arte que truxo el Pe.
Provincial".
O comentário de Blazquez revela que bem
cedo o estudo de LG pelos jesuítas começava a se processar de modo sistemático,
com base na documentação escrita que se formava. Se somente o uso efetivo da LG
permitiria sanar as dúvidas, como Anchieta e Figueira clamam por diversas
vezes, essas dúvidas seriam o resultado desse estudo acadêmico.
3.2. A
gramática de Figueira, no entanto, parece pertencer a outro contexto. Na Aprovaçam,
o Pe. Manuel Cardoso, que examinara a obra por ordem do Reitor do Colégio de
Pernambuco, declara que a Figueira se devia "muito agradecimento, por facilitar
com seu trabalho, o muito, que os que aprendem esta lingua Brasilica costumam
ter não obstante a arte do P. Ioseph Anchieta, que por ser o primeiro parto
ficou muy diminuta, & confusa, como todos experimentamos" (Figueira, s.d.:[A2 r-v]).
A exposição mais
fácil conseguida por Figueira poderia apoiar-se numa apresentação mais didática
dos dados. A comparação de alguns pontos de ambas as descrições, porém, levanta
uma outra possibilidade: a do abandono, por parte de Figueira, de traços
lingüísticos presentes em Anchieta. Afora isso, o contato de Figueira com
outros brancos, de fora das missões, parece ter sido mais intenso, como sugere
sua amizade com o Capitão-mor Bento Maciel (cf. Lisboa, 1626).
Tomamos
aqui dois tópicos presentes em ambas as obras para comparação: a marcação do
grau e a cópula.
4.1. As
descrições de Anchieta e de Figueira estão em acordo ao afirmarem que a LG não
apresentava um processo morfológico para a marcação de grau. Este é apresentado
como uma construção sintática em que há um sujeito, a qualidade que funciona
como o termo de referência na comparação, o elemento objeto da comparação e a
posposição indicadora de superioridade fechando a oração.
Em (1) uma
espécie de "grau positivo" para a entidade objeto da comparação (ete
ndé çui) está explicitamente indicada. A mesma análise pode aplicar-se a
(6), mas ete (não traduzido por Figueira) pode também ser compreendido
como equivalendo ao advérbio "mais"[9], o que torna a construção mais
semelhante à portuguesa. Uma outra pequena diferença aparece na comparação de
(2) e (5). Em (5) cuab pode ser compreendido como uma forma verbal,
seguida de objeto; em (2), cuâb pode ser interpretado na fronteira entre
verbo e adjetivo:
Anchieta
(1595: 43r):
1. xe-catu ete ndè çuì
1s-bom/natural/2s/em
comparação com
verdadeiro (Lat. prae)
"Eu
sou bom, mais que tu"
2. ai-cuâb
etê ndê çuì
1s/saber/natural/2s/em
comparação com
"Sei
mais que tu"
Figueira (s.d.: 43r;
66r-v):
3. xer-oca turuçu
etè der-oca { çoce }
1s-casa/grande:
? /2s-casa/sobre
{
çui }
de
"Minha
casa é maior que a tua"
4. xer-oca
turuçu ete nhe
opacatu-oca çoce
1s-casa/grande/
? / ? /todos-casa/sobre
(lit.)
"Minha casa é muito grande sobre todas as casas"
5. ai-cuab
bae nde çoce
1s-saber/coisa/2s/sobre
"Sei
mais (melhor) que vós"
6. xe-angaturam ete de çui
1s-bom/ ?
/2s/de
"Sou
melhor homem que vós"
4.2. Anchieta e Figueira informam da
ausência de um verbo na LG que correspondesse ao latino esse ou aos
portugueses ser, estar e ter (Anchieta
1595: 46-48; Figueira s.d.
34v-36r).
4.2.1. Segundo Anchieta, o significado
básico de esse corresponde ao verbo ser do português. Para a
expressão desse significado, três construções são possíveis: Pron + Adj; Pron +
N; Pron + Verbal or Verbal + Pron.
Exemplificam a primeira construção (7-9), enquanto (10-14) indicam a construção
Pron+N:
7. xe-catu na-xe-catu-i
1s-bom NEG-1s-bom-NEG
"Eu sou bom" "Não
sou bom"
8. nde-catu na-nde-catu-i
2s-bom NEG-2s-bom-NEG
"Tu és bom" "Tu
não és bom"
9. y - catu n-i-catu-i
3s-bom NEG-3s-bom-NEG
"Ele é bom" "Ele
não é bom"
Segundo Anchieta, no caso de Pron + Nome é
indicado por o suppositum (i.e., o sujeito), na posição final. A
negação obrigatoriamente inclui a partícula -ruã- entre o suposto e o N:
10. abarê-yxê na-ixê-ruã-ábarê ou n-abarê-ruã-ixê
Padre-1s NEG-1s-NEG-Padre NEG-Padre-NEG-1s
"Padre sou eu" "Não sou padre" "Não sou
padre"
11. abarê-Pedro
Padre
"Padre
é Pedro"
Possíveis
ainda, embora ambíguas, as formas:
12. xê-abarê na-xê-abarê-i
1s-padre NEG-1s-Padre-NEG
"Eu
sou padre" "Não
sou padre"
"Eu
tenho padre" "Não
tenho padre"
13. xe-caguar na-xe-caguar-i
1s-bebedor de vinho NEG-1s-bebedor de
vinho-NEG
"Tenho bebedor de meu vinho" "Não tenho bebedor de meu
vinho"
"Sou bebedor de vinho" "Não sou bebedor
de vinho"
14. aôba-yxê n-aoba-ruã-ixê na-ixê-ruã-aóba
roupa-1s NEG-roupas-NEG-1s NEG-1s-NEG-roupa
"Eu
sou roupa" "Eu
não sou roupa" "Eu
não sou roupa"
Colocado o suposto antes do N, o significado mais
comum passa a ser "ter"(xe-aob "Tenho roupa"; na-xe-aob-i
"Não tenho roupa"). Para
significar "eu sou roupa", com a construção Pron + Adj, ter-se-ia yxê-aóba.
Contudo Anchieta (1595: 46v) adverte que "se se praeposer o supposto ha
dauer algua morula na prolação", para que se mantivesse a diferença entre yxê-aóba
"eu sou roupa" e yxê-aóba "minha roupa".
Com os verbais
há duas ordenações possíveis: Verbal + Pron or Pron + Verbal. Anchieta
exemplifica com verbais em -ara 'agentivo' (substantivos ou adjetivos) e
em -poro- and -moro-:
16. caguara-ixê na-caguara-uã-ixê
bebedor de
vinho-1s NEG-bebedor
de vinho-NEG-1s
"Eu sou bebedor de vinho" "Não sou bebedor de
vinho"
17. xe-poro-mboe-çar na-xe-poro-mboe-çar-i
1s
BEN ensinar Ag. NEG-1s-BEN-ensinar-Ag-NEG
"Tenho quem ensine" "Não tenho
quem ensine"
"Tenho mestre que ensine a
outros"
18. moro-mboe-çara-ixe na-moro-mboe-çara-ruã-ixê
BEN-ensinar-Ag-1s NEG-BEN-ensinar-Ag-NEG-1s
"Sou mestre' "Não sou mestre"
Anchieta menciona a distinção entre os significados de
formas com -poro- ("ter"), somente adjetivas, e -moro-
("ser"), substantivas ou adjetivas e, por conseguinte, passíveis de
apresentarem duas ordenações.
O segundo significado básico de esse é
"ter" e depende da ordenação de elementos.
19. xe-pinda na-xe-pinda-i
1s-anzol NEG-1s-anzol-NEG
"Tenho anzol" "Não
tenho anzol"
ou
20. yxê xê-pinda ou 21. xe-pinda ixê
1s/1s-anzol 1s-anzol/1s
"Tenho anzol" "Tenho
anzol"
4.2.2. Figueira (s.d.:
35r), como Anchieta, observa a ausência de um verbo equivalente ao esse
latino na LG, mas aponta que essa falta é compensada pelo pronome xe.
Itens lexicais específicos dão o significado de expressões com
"estar" em português: aico "estou", ajub
"estou deitado", aicobé "estou vivo"(cf. Anchieta, fol. 46). Segundo Figueira, xe tem dois
significados e, conseqüentemente, duas construções distintas. Seu sentido
básico é "ego", e combina-se com adjetivos para a formação de orações
que no latim teriam o verbo esse:
22. xe-catu 23. xe-pochi
1s-bom 1s-mau,
feio, sujo
"Eu
sou bom" "Eu
sou mau, feio, sujo"
A significação
secundária de xe é meus, mea, meum, e junta-se a substantivos,
valendo pelo verbo "ter" do português:
24. xe-cig
POS.1s-mãe
"Tenho mãe"
Diferentemente de Anchieta, Figueira não refere
explicitamente diferenças no uso da negação dessas formas; tampouco diferentes
ordenações para "ser" e "ter". Não há também menção a
sentidos específicos para construções com -poro-, que aparentemente
considera (como também a -moro-) um marcador indeterminado de acusativo
com o traço [+ humano] (Figueira
s.d.: 49).
As diferenças entre as gramáticas de Anchieta e
Figueira apontam para diferentes domínios de LG como segunda língua, que
refletiriam o domínio de cada autor. São, no entanto, também um indicativo de
que a Companhia havia feito tabula rasa das diferenças dialetais, ao
menos no nível básico de aprendizado de LG, ao fazer circular uma mesma versão
por todo o território. Afinal,
a variação fora reconhecida pelo próprio Anchieta (1595:1v), que advertia o
leitor de que "o vso de diuersas partes do Brasil sera o milhor
mestre".
Não obstante a
constatação de diferenças entre ambas as descrições, sua atribuição
simplesmente a influências advindas de contacto com o português não nos parece
uma explicação suficiente. Levantamos aqui a possibilidade de ter havido um
modelo gramatical jesuítico (pautado, talvez, no trabalho do Pe. Manuel Álvares) que serviu de modelo
organizador das descrições da Companhia, e ao qual Anchieta não se ateve. Parte do mérito de Figueira teria sido,
então, o de adequar a obra de Anchieta a esse modelo.
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[1] Esta comunicaçäo tem origem no trabalho final apresentado ao Prof. Alan Baxter (La Trobe University, Austrália), no curso sobre Línguas Pidgins e Crioulas. Uma versão parcial dessa primeira versão saiu publicada em Papia 2: 1.85-98 (1992). Meus agradecimentos aos Profs. Alan Baxter, Candida Drummond Barros, A. Naro e Hildo H. do Couto pelos comentários. Todos eles são inocentes em relação a quaisquer problemas que tenham permanecido.
[2] Além de referências constantes à língua de Guiné e à língua de Angola, nos pedidos de religiosos que as falassem, para que se pudesse proceder com eficácia à pregação junto a essas populações que aumentavam àmedida que se intensificava o tráfico de escravos para o Brasil (cf. Leite, ed. 1954: Cardim 1583-90), há ainda referências, por exemplo, a comunidades falantes de línguas européias (encontramos, e.g., referência a um núcleo de 400 famílias irlandesas vivendo no Pará por volta de 1643 - BNL Cod.7627)
[3] A Societas Jesu ou Companhia de Jesus foi fundada em 1539, em Roma, por Inácio de Loiola e mais nove companheiros de sacerdócio. Em 1759 foi expulsa de Portugal e seus domínios, incidente que marcou o início do processo que culminaria com a supressäo da Ordem por Clemente XIV em 1773. Os primeiros missionários da Ordem começaram a chegar ao Brasil em 1549.
[4] Segundo Anchieta, um dos línguas que presta auxílio aos Jesuítas na doutrinação dos mamelucos ainda no ano de 1549 -ano da chegada dos Jesuitas ao Brasil- é Pedro Correa (Abreu, ed. 1886:14), que, antes de conhecer o Pe. Leonardo Nunes e tornar-se irmão na Ordem, vivia de saltear e tornar índios escravos (Cabral s.d.: 90).
[5] Levem-se em conta os problemas que um intérprete trazia para o ato de confissäo.
[6] Abreu, ed. (1886:12): "Os primeiros religiosos que vieram ao Brasil foram da ordem de S. Francisco, os quaes aportaram a Porto Seguro não muito depois da povoaçäo daquella capitania, e fizeram sua habitação com zelo da conversão do gentio, e, ainda que não sabiam sua lingua, de um delles se diz que lhe lia o Evangelho e, como lhe dissessem os Portuguezes que para que lh'o lia pois o nao entendiam? respondia: Palavra de Deus é ella, tem virtude para obrar nelles."
[7]"Con todo el sacramento del baptismo tienen tanta fuerça que a todo tiempo aiuda, porque me acontecio algunas vezes, por los mamalucos que llevava por lenguas seren vagarosos mucho, como es su costumbre, en el hablar y frios, hablarles em portugués, sin ellos entendieren cousa alguna, con sólo saberen que aquello devía de ser sobre su mal bivir, se paravan mui vergoncosos y, sin me resistiren ni responderen, les dezía: vámonos, tomándolos por la mano y ívanse para casa comigo" (Carta do Pe. Luís da Grã a Inácio de Loiola - Bahia, 27.12.1554 - In Leite, ed. 1954: II,136)
[8] Excetua-se o Pe. Azpilcueta, que teria ido buscar um língua à Bahia (Candida Barros, c.p.). No entanto ele parece ter dominado uma versão pidginizada, a julgar pelos comentários que ficaram registrados.
[9] O significado em Ayrosa 1938 é 'mais'. Figueira, diferentemente de Anchieta, não trazduz a partícula.